Sabrina Noivas 4
Temporary Arrangement

A estada seria temporria, mas a atrao que sentiam mostrou que no poderiam viver um sem o outro!
A ltima coisa que o renomado advogado Mark J ohnson queria em sua casa era uma hspede inesperada: a bela Kim Wade, enteada de sua irm. Kim tambm no ficara nem um pouco satisfeita com a situao. No conhecia Mark, nem tampouco confiava na madrasta, que lhe prometera uma famlia e lar verdadeiros. Distante de casa, logo ela se deu conta de que teria de ficar sozinha na companhia de um homem a quem deveria chamar, de tio, mas que parecia um artista de cinema.

Obs: Sem Crditos , No achei o nome da Pessoa Responsvel pelo Ebook.

 

Srie Nupcial (The Bridal Collection)
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Kate Denton
To Love and Protect
	Oct-1992

Ruth Jean Dale	Showdown!
Sabrina Noivas 16 - Uma Lenda de Amor	Jan-1993

Anne Marie Duquette	Rescued by Love
Sabrina Noivas 14 - Unidos Pelo Destino	Mar-1993

Shannon Waverly	Temporary Arrangement
Sabrina Noivas 04 - Sim, Meu Amor	Apr-1993






CAPITULO I
	Mark? 
	 ele mesmo. Quem ?
	Oi. Aqui  sua irm.
	Miriam?
	Surpresa!
Mark Johnson colocou de lado o contrato no qual estivera trabalhando, tirou os culos de leitura e encostou-se na poltrona, esboando um sorriso satisfeito.
	Puxa vida! Com est voc, minha irm?
	Oh, poderia estar melhor, mas no se preocupe comigo.
	Quero saber sobre voc.
	Estou bem, apesar de mais ocupado que nunca.
	Otimo, timo. E como est indo seu novo trabalho?
	Novo trabalho? Oh, com Brightman, Collins e Fuller? O sorriso de Mark ampliou-se. H dois anos que trabalhava na firma de advocacia.  Est indo muito bem.
	Oh, isso  maravilhoso, Mark. Quem diria, hein? Da maneira como fomos criados... Sinto muito orgulho de voc. Sabe disso, no sabe?
Mark olhou para a foto sobre a mesa. Era a nica que tinha de Miriam, tirada no dia em que ela se formara na faculdade, h nove anos. Na poca, ela estava com trinta anos e havia acabado de se divorciar do segundo marido. Mark estava com vinte e trs. A ideia de fazer advocacia no saa de sua mente.
Miriam mudara-se para Tucson e depois para Nova York. Nunca mais tivera notcias dela, desde ento.
	O que aconteceu, Miriam? E que histria  essa de "poderia estar melhor"?
	Oh, no  nada. Odeio importunar as pessoas com meus problemas, voc sabe.
	Miriam, fale logo o que h de errado.
	Est bem  ela suspirou. Depois de alguns segundos, completou:  Meu marido... morreu, Mark.
Ele empertigou-se na cadeira.
- Oh, Miriam. Sinto muito.  Passou a mo pelos cabelos.  Oua, querida: no precisa se preocupar com nada. Posso embarcar em um vo dentro de 2 horas. Irei at a lhe dar meu apoio.
Miriam tossiu levemente.
	Hmm, no  preciso, Mark.  que... Cliff no morreu recentemente.
	O qu? Como assim?
	Bem, ele morreu... h 5 meses. Mas no  por isso que estou ligando - ela acrescentou rpido.

	Miriam, no ligou nem para me avisar sobre a morte de seu marido?
	Sei que no foi o certo  ela admitiu.  Mas  que odeio importun-lo. Voc  muito ocupado e no quis que fizesse uma longa viagem at aqui s para assistir a um funeral.
	Pelo amor de Deus, Miriam, sou seu irmo!
Mark esperou por uma resposta, enquanto tentava controlar o ressentimento. No conhecera Cliff e estivera fazendo planos de convidar Miriam e ele para passarem alguns dias em sua nova casa.
	Sinto muito no t-lo avisado  Miriam desculpou-se. Acho que no estava raciocinando muito bem na poca, devido ao choque.
Mark aceitou a desculpa com um suspiro resignado.
	Do que ele morreu?
	Acidente de carro. De qualquer maneira, o que eu ia dizer  que minha vida tem sido um bocado solitria desde ento... Bem, para encurtar a histria: Mark, importaria-se de ter sua grande irm como vizinha?
	Aqui? No Colorado?
	Hum-hum. Sei que sa de casa quando voc tinha apenas dez anos e no mantive o contato que deveria desde ento. Todavia, ainda somos irmos, Mark, e, queira ou no, somos a nica famlia que nos resta. Sinto muita saudade de voc e espero que no seja tarde demais para nos reaproximarmos. A morte de Cliff me fez pensar no quanto a vida  curta e em como  importante manter contato com nossos entes queridos. Espero que entenda o que quero dizer.
	Sim, eu entendo.
	Por isso me pus a pensar se voc se incomodaria de ter sua irm por perto.
	Claro que no, Miriam! Ser muito bom.
	Mesmo?
Mark estava prestes a confirmar o que dissera, mas hesitou. Ser que gostaria mesmo de ter sua irm por perto a essa altura da vida? Os dois estavam distanciados h anos. Levavam vidas diferentes e ele j no tinha certeza de que ela se adaptaria ao estilo da sua. Por outro lado, como poderia negar um pedido daqueles? Miriam era sua irm. No importava a distncia entre eles, ainda era sua obrigao ajud-la.
	Mark, ainda est a?
	Uh, sim. Claro que ser bom t-la por perto, Miriam. Ficarei muito contente.
	No imagina como estou feliz em ouvir isso. Porm, no quero atrapalh-lo de maneira alguma. Venderei a casa aqui no Brooklyn para que eu possa comprar um apartamento quando chegar a. S gostaria de lhe pedir um favor.
Inexplicavelmente, Mark tornou-se tenso, esperando um pedido impossvel de ser atendido.
	Ser que poderia me enviar alguns jornais locais?  Miriam completou.  Quero dar uma olhada nos anncios de imveis e empregos, para ver o que est disponvel por a.
Os ombros de Mark relaxaram de puro alvio.
	Claro - respondeu. -Enviarei amanh mesmo, mas no se sinta na obrigao de apressar a compra do apartamento. Na minha casa h espao suficiente para que fique comigo durante algum tempo.
	Oh, no posso.
Claro que pode! Insisto que fique aqui enquanto procura...  ele interrompeu-se de repente.  Miriam, Cliff no tinha uma filha quando voc se casou com ele?
	Sim  ela respondeu, sucinta.
	E ela foi morar com algum parente?
	No. Infelizmente, Kim no tem parente algum.
	Ento... ela vir com voc?
	Receio que sim.  por isso que no quero incomod-lo.
Se ao menos eu estivesse sozinha...
	Imagine, Miriam. Minha casa tem quatro quartos.
	Ser por pouco tempo, prometo  ela assegurou-o.  S at encontrarmos um apartamento.
	Pode ficar o tempo que quiser.
	Obrigada, meu querido.
	Ora, no h o que agradecer. E ento, quando chegar?
	Deixe-me ver... Hoje  quarta... Assinarei os documentos da venda da casa daqui a uma semana... Que tal na sexta- feira da outra semana?
	To rpido?
Mark engoliu seco. Pensara que ela levaria pelo menos um ou dois meses para se mudar, e que at l ele teria tempo de terminar o caso judicial que estava resolvendo. No momento estava trabalhando uma mdia de sessenta a setenta horas por semana. Onde arrumaria tempo para ajeitar os quartos para receb-las? Como arranjaria tempo para mais duas pessoas em sua vida, no perodo em que resolvia o caso mais complicado de sua carreira? Alm disso, havia Suzanne, que lhe tomava o pouco tempo restante. Como se no bastasse tudo isso, teria de oferecer uma festa para a qual no estava nem um pouco animado.
	Daqui uma semana e dois dias?  perguntou  irm.
	Sim  Miriam confirmou rpido.  Obrigada mais uma vez, Mark.
Ele abriu a boca para protestar, mas ela j havia desligado.
Na quarta-feira da semana seguinte, os dez funcionrios do escritrio onde Kim trabalhava ofereceram-lhe uma festa de despedida,  hora do almoo. Havia um bonito bolo confeitado, champanhe e muitos beijos e abraos.
Kim ficou de p, aceitando com um sorriso os desejos de boa sorte. Porm, no fundo sentia-se muito estranha. Aquela mudana no fazia sentido. Sua vida estava ali, com seus amigos e seu trabalho.
	No tinha ideia de que estava pensando em se mudar, Kim  salientou um dos colegas.  Quando tomou a deciso?
	H duas semanas, Tom.
	Colorado, no ? Mas por que to longe?
	Minha madrasta nasceu no Colorado e ainda tem famlia por l.
	E da?
	Agora que meu pai se foi, no restou muito para Miriam fazer aqui. Ela quer voltar para a terra-natal e me pediu para acompanh-la.
	E voc vai s por isso?
	Sim.
Na verdade no fora to fcil. Kim passara vrias noites em claro antes de tomar a deciso.
	Quando partir?  indagou ele.
	Na sexta-feira.
	A prxima?
	Hum-hum. J est tudo acertado.
	Mas... sabe se conseguir arrumar emprego? Tem lugar para ficar?
	Hei, Tom!  uma voz rouca de mulher soou do outro lado da sala.  H um cliente ao telefone que quer falar com voc.
Ele suspirou, resignado.
	Est bem, Charlotte, obrigado.  E voltando-se para Kim:
 Cuide-se, menina. Sentiremos sua falta.
Kim sorriu, agradecida. Tom foi a ltima pessoa a sair da sala; todos os demais j haviam retornado s suas mesas de trabalho. Assim que ele se foi, Charlotte aproximou-se e sentou diante da mesa de Kim.
As duas eram amigas h muito tempo e fora Charlotte que arrumara o emprego de secretria para Kim.
	Obrigada pelo salvamento  Kim agradeceu.
- De nada. Imaginei que estivesse cansada de responder perguntas.  Charlotte acendeu um cigarro e soprou uma fina nuvem de fumaa.  Entretanto, tenho de confessar que eu mesma tenho algumas a fazer.
Kim jogou o copo de plstico na cesta de lixo.
	Quais?
	Como: o que deu em voc?
	Para querer me mudar? Sei l. Por que eu iria querer sair do Brooklyn e ir para o Colorado, onde o ar  mais limpo, o ndice de criminalidade  menor, h mais oportunidades de empregos e tenho uma famlia?
Charlotte olhou-a atravs da fumaa.
Famlia? Por acaso estamos falando da mesma pessoa que a chamou de idiota naquele dia em que voc perdeu o salrio?
O estmago de Kim contraiu-se.
	Aquilo foi h seis anos, Charlotte.
	E da? Ainda acho que foi muita ousadia da parte dela, humilh-la daquele jeito. Ela havia acabado de se casar com seu pai, lembra?
Sim, Kim recordava perfeitamente. Estava com dezesseis anos na poca e ansiosa para saber como era ter uma me de verdade. Poder fazer compras, conversar sobre maquiagem, namorados e mudanas fsicas. Enfim, coisas que no tinham como ser discutidas com um pai.
Todavia, s o que recebera fora desprezo. No havia lugar para ela na vida dos dois. No era mais uma criana para ser mandada para um colgio interno e jovem demais para sair de casa e ir morar sozinha. A madrasta s lembrava de lhe dirigir a palavra no dia em que Kim recebia o pagamento.
Entretanto, no quis incentivar a indignao da amiga. No havia necessidade de Charlotte conhecer as diablicas artimanhas de sua madrasta.
	Aquele foi um incidente isolado  mentiu, tambm sentando.  Miriam nunca mais me ofendeu.
	Mas tambm nunca foi nenhuma Madre Teresa, se quer saber minha opinio. Esse comportamento bonzinho que ela assumiu nas ltimas semanas est muito estranho, ainda mais se se levar em conta o quanto ela ficou furiosa aps a morte de seu pai.
Kim inclinou-se para frente, fazendo os belos cabelos ruivos carem sobre os ombros. Charlotte tinha razo; ela ainda nem havia se recuperado da perda do pai e Miriam comeara a for-la a sair de casa, dizendo que estava na hora de ela se tornar independente. Ou ento de se casar. Ela prpria j estava casada na idade de Kim.
A princpio, Kim pensara que Miriam estivesse brincando. Casar? Cus, ela no estava nem namorando! Porm, quando ela se recusou a atender os conselhos da madrasta, Miriam comeou realmente a importun-la. Discutiam com frequncia, at Miriam ameaar expuls-la de casa.
Kim ficara aturdida. Agora no estava entendendo a deciso
que a madrasta tomara. E muito menos o motivo que a estava levando a acompanh-la.
Como que lendo seus pensamentos. Charlotte disse:
	Hoje Miriam transferir a casa para o novo proprietrio, no ?
Kim assentiu.
	Ela est no banco agora  disse.
	Ainda no consigo acreditar.
Mais uma vez Kim utilizou a ttica de esconder sua mgoa, tcnica que aprendera desde que seu pai se casara com Miriam.
	A casa no  to boa assim  comentou, erguendo o queixo.
	Mas foi l que voc cresceu. Alm do mais, a casa pertencia a sua me. Ela a deixou para seu pai na esperana de que ficasse de herana para voc.
	E a certa altura do casamento, meu pai resolveu adicionar o nome de Miriam ao testamento.
	Aposto que ela o convenceu numa das noites em que ele estava de porre.
	Charlotte, por favor.
	Desculpe. Mas ela o encorajava a beber, Kim. Voc sabe disso. Foi uma tremenda injustia Miriam haver herdado a casa, o seguro, a penso. Deve haver algo errado nessa histria.
Kim mordeu o lbio, imaginando se deveria admitir que concordava com a amiga.
	No h nada de errado, Charlotte. Contratei um advogado a cerca de um ms e ele verificou todos os detalhes para mim.
A outra arregalou os olhos.
	Fez isso?
	Hmm, no era um advogado pan clar, mas sim um daqueles grupos de advogados autonomos, cujas propagandas so exibidas no metro. Foram muito atenciosos comigo e chegaram  concluso de que a transferncia da herana foi perfeitamente legal. No tenho um s argumento contra Miriam, se quer saber.
Charlotte fungou, indignada.
	No foi culpa dela  Kim prosseguiu.  Foi meu pai quem decidiu transferir a herana para o nome de Miriam. Alm disso, ela se ofereceu para dividir parte da fortuna quando chegarmos ao Colorado.
	S acredito vendo!
	Ela disse que pagar uma escola para mim.
	Essa  boa! Ela foi a culpada de voc no haver terminado os estudos, lembra? Com o tempo em que ela a obrigava a ganhar dinheiro para eles no sobrou muito para estudar.
	Eles precisavam do dinheiro, Charlotte  Kim respondeu na defensiva.  Meu pai passou um bom tempo desempregado e Miriam no podia trabalhar por causa do corao.
Charlotte inclinou-se para a frente.
	Sempre tem uma desculpa para tudo, j notou?
Kim respirou fundo.
	Sim.
	Por qu?
	Por qu?  Kim engoliu seco.  Porque... porque, Charlotte, minha vida seria insuportvel se eu no agisse assim! Agora, se me der licena, preciso esvaziar minha mesa.
Na tarde de sexta, o telefone tocou quando Mark se preparava para deixar o escritrio.
	Al.
	Oi, como est, querido?
	Miriam?  Ele olhou para o relgio, franzindo o cenho.
 Voc no deveria estar no avio?
	E por isso que estou ligando. Houve uma ligeira mudana nos planos. Sabe a pessoa que ia comprar minha casa? Bem, ela desistiu do negcio no ltimo instante.
	Oh, sinto muito.
	Bem, no h problema, minha vida  assim mesmo: cheia de imprevistos. Mas um casal veio conhecer a casa esta tarde e os dois se mostraram bastante interessados. J fizeram at a oferta. Agora o nico problema  que terei de ficar aqui por mais algumas semanas.
Mark suspirou, aliviado.
	No se preocupe, Miriam. Minha porta estar aberta quando voc resolver viajar.
	Obrigada, Mark. Liguei para lhe avisar que Kim viajou na frente, sem mim. Ela chegar por volta das sete e trinta, no horrio da.
Mark caiu sentado na cadeira.
	Kim estar aqui esta noite? Sozinha?
	Sim. Todavia, creio que no haver problema j que de qualquer maneira voc estava nos esperando.
	Ela veio... sozinha?
Bem, ela estava pronta para viajar e achei que no havia
motivo para me esperar. Tem alguma objeo, Mark?
"S agora ela pergunta?", ele pensou. "Agora? Quando a garota j est a caminho?"
Passou a mo pelo rosto cansado. No era esse acordo que esperava. Receber Kim com Miriam era uma coisa, mas receber apenas a enteada da irm deixava toda a responsabilidade sobre suas costas. No tinha tempo ou disposio para prosseguir com aquilo.
	Mark, no se preocupe; Kim no causar problemas. Alm do mais, estarei a antes do que voc imagina.  Miriam tossiu levemente.  Mas tenho um favorzinho a lhe pedir antes que ela chegue.
	Ahn?  Mark tornou-se confuso.
	Pode fazer com que ela se mantenha ocupada?
	No estou entendendo, Miriam.
	Bem, faa com ela se envolva com situaes novas, conhea pessoas, passeie sozinha e, se ela quiser, deixe que comece a procurar o apartamento para ns. Quero que ela se sinta  vontade na nova cidade, entende?
	Acho que sim.
	Porm, o mais importante  que ela arrume logo um emprego. Um trabalho  muito bom para dar senso de responsabilidade a qualquer pessoa, concorda?
Mark estava mais confuso que nunca.
	Espere a, Miriam. No seria melhor matricul-la em alguma escola?
	Escola?  Miriam riu.  No, Mark. Kim j est crescida demais para querer voltar aos estudos.
Mark tamborilou os dedos sobre a mesa.
	 mesmo? Como o tempo passa! Quando voc se casou com Cliff ela era apenas uma criana.
Esperava bancar o tio para uma adolescente, cujos principais problemas fosse se preocupar com espinhas e querer viver em bailes. Kim devia estar com dezoito ou dezenove anos. Garotas nessa idade tinham problemas diferentes: drogas, canos, gravidez...
	Depositarei minha confiana em voc, Mark. Receio que Kim no goste da mudana e queira voltar para Nova York.
	E por que ela faria isso?
	Porque  o nico lugar que ela conhece.  Miriam exalou um suspiro desolado.  Convena-a a ficar a. Far isso por mim? Faa com que ela se sinta to distrada que no tenha tempo de pensar em voltar. No h nada para ela aqui, exceto amizades passageiras e empregos insignificantes.
	Miriam, voc fala como se a garota fosse tentar fugir daqui.
	Desculpe.  provvel que eu esteja exagerando, mas  que gosto muito da menina e quero o melhor para ela. Sei que essa mudana  o melhor. Em Colorado Springs ela ter oportunidade de encontrar atividades mais interessantes e poder se tornar algum. Esse  meu sonho.
No fundo, o que Miriam estava sugerindo era que ele se envolvesse na vida de Kim, Mark concluiu. Bem, ele no tinha nada a ver com aquela histria e no estava a fim de bancar o conselheiro para jovens sem meta na vida.
Todavia, faria questo de uma coisa: ensinaria Kim a se tornar independente. Ela j tinha idade suficiente para cuidar de si mesma. E quanto mais cedo ele conseguisse isso, mais cedo se livraria dela.
	Verei o que posso fazer  respondeu, por fim.
	Obrigada, Mark. Fico lhe devendo mais esta.
Mark estava comeando a concordar com a irm.
O piloto avisou pelo auto-falante que o avio aterrissaria dentro de quinze minutos. A temperatura em Colorado Springs estava agradvel: vinte e dois graus.
Kim empertigou-se na poltrona. Quinze minutos? Cruzou os braos sobre o estmago; ondas de nusea ameaavam domin-la. No estava pronta para conhecer o estranho que fora denominado por Miriam como seu "tio postio". Tambm no estava preparada para morar em uma casa estranha, em uma cidade que nem conhecia. Ainda por cima, sozinha.
Fechou os olhos, rezando para que ela e o tal tio se dessem bem. Nunca tivera intimidade com o pai, tambm, como poderia ter intimidade com uma pessoa que nem ligava para ela? Por isso estava apreensiva. Seria difcil se entender com um homem mais velho. E para piorar a situao ele era um advogado. Sobre o que conversariam?
Pegou a bolsa que deixara no cho e tirou um espelho de dentro. Aps uma semana de insnia, estava com aparncia plida e cansada. At mesmo os cabelos ruivos estavam sem brilho. Apesar disso, as ondas espiraladas emolduravam com perfeio o rosto delicado, repousando suavemente sobre os ombros.
O avio tocou o solo. Kim segurou com firmeza os braos da poltrona. No pde resistir ao impulso de olhar pela janela. L estava Colorado Springs, estendendo-se como um vasto tapete natural ao p de um conjunto de rochas.
Pouco depois o avio parou e os passageiros comearam a ficar de p, preparando-se para desembarcar. Kim fez o mesmo, mas a movimentao de toda aquela gente deixou-a mais zonza ainda.
Ela respirou fundo, procurando se acalmar. "Coragem!", disse a si mesma. Pegou a bolsa e seguiu com determinao as pessoas que se encaminharam para o tnel acarpetado que conduzia ao aeroporto. Procurou aparentar que j estava acostumada a frequentar aquela situao. Resolveu seguir a mulher que ia  sua frente, para ver como faria para pegar as malas.
Mas, pelo visto, pegar a bagagem no era o primeiro item da agenda. Foi com dor no corao que assistiu as outras pessoas abraando amigos e familiares.
Bem, devia haver algum tio postio no meio daquelas pessoas, pensou consigo. Percorreu a vista pelo saguo, imaginando como conseguiria reconhec-lo. Miriam no lhe dera nem ao menos uma foto dele.
De repente seus olhos se depararam com os de um homem que tambm a observava. Por um momento ela no conseguiu piscar ou respirar.
Ele desviou o olhar e perscrutou os passageiros, como se esperasse encontrar uma outra pessoa. Quando terminou a busca, Kim ainda estava no mesmo lugar e era a nica pessoa que no havia sido localizada por ningum. O homem franziu o cenho e se aproximou dela.
	Kimberly Wade?
	Sr. Johnson?
Entreolharam-se em silncio. Ele devia ter um metro e oitenta de altura, olhos profundamente azuis e cabelos castanhos intercalados com fios dourados.
Kim esperava que ele parecesse com Miriam, por isso ficou impressionada por ele ser to jovem. E to bonito.
"Deus meu!", pensou consigo, sentindo uma leve tontura. Algum enfiara um ssia de Mel Gibson em um terno Pierre Cardin e, provavelmente rindo muito, fizera com que ele fosse parar bem diante dela!

CAPTULO II

Como foi o vo?  perguntou Mark, _ srio.
S depois de algum tempo, Kim se deu conta de que ele havia dito algo.
	O que disse?  indagou, corando.
	A viagem. Como foi?
	Ah, foi boa. Exceto por uma tempestade de neve que pegamos no caminho. Fiquei um bocado assustada.
Enquanto falava, Kim no conseguia tirar os olhos dele. Ento era esse seu novo tio? Um Adnis de terno e gravata?
	Ficar surpresa com a temperatura daqui...
Ele falava com voz grave e melodiosa. Kim mal ouvia as palavras, pois estava mais interessada em observar os traos atraentes de seu semblante, os dentes muito alvos, o nariz reto... Definitivamente, aquele no era o tipo de homem que se via com frequncia no lugar onde ela crescera.
	Espero que no tenha esperado muito  disse quando viu que ele se calara.
	No  Mark respondeu.  O vo chegou bem na hora.
Kim corou ainda mais quando percebeu que ele observava suas roupas. Sua chefe lhe dissera para viajar confortavelmente, com jeans e suter e Kim havia seguido o conselho. Porm, no ltimo instante, Minam lhe convencera a mudar os sapatos comuns por um par de botas de salto e um casaco preto para "realar" o visual, segundo ela.
	Trouxe mais alguma bagagem?  inquiriu ele.
	Sim.
	Ento vamos peg-la.
Embora estivesse sendo gentil, Kim percebeu que ele agia com indiferena. Seu rosto estava inexpressivo, o olhar distante e ele andava como se quisesse deix-la para trs. Suas esperanas de se dar bem com ele comearam a ruir.
	Miriam me disse que  advogado  comentou enquanto tentava acompanhar os passos dele.  Tem uma especialidade?
	Sou advogado particular.
	Deve ser uma profisso interessante.
	Mais ou menos. Na maioria das vezes  tediosa e toma muito tempo daqueles que lidam com ela. De fato, Kimberly, acho melhor avis-la de que no terei muito tempo disponvel para ficar com voc. Estou trabalhando muito ultimamente.
Kim olhou-o de soslaio. Ele no parecia desapontado. Na verdade, sua expresso era de puro alvio. Desconfiou que ele usara o trabalho como desculpa para no ficar com ela.
	Tudo bem  disse, apesar do embargo na garganta. De qualquer maneira, tambm tenho coisas a fazer.
Chegaram  esteira de bagagens.
	Sim, eu sei  Mark anuiu.  Gostaria de poder ajud-la...  seu tom era falsamente sincero.  Mas fiz algo melhor: entrei em contato com um amigo que  corretor de imveis. Ele a levar para conhecer alguns apartamentos. Amanh mesmo, se voc quiser.
"Amanh?!", pensou ela. Ainda nem conhecia & lugar onde iria ficar e ele j a estava pondo para fora!
	Miriam me disse que voc precisa de um emprego  continuou ele , ento contactei um conselheiro vocacional para cuidar disso tambm. Poder passar no escritrio dele na segunda-feira.
Kim pegou uma das malas.
	Por que um conselheiro vocacional?  perguntou a ele.
	Oh, eles ajudam as pessoas a escolher carreiras, descobrir aptides...
	Eu sei o que eles fazem. Perguntei por qu.
	Bem, antes de comear a procurar um emprego, no acha melhor primeiro descobrir o que lhe interessa?
	Mas eu j sei...
Kim interrompeu-se, franzindo o cenho. Esse homem no sabia nada sobre ela e, pelo visto, no se interessava em saber. Manteve a boca fechada e voltou a se concentrar na bagagem.
"Eu devia ter ficado em Nova York", repetiu para si mesma pela centsima vez naquele dia.
	Sr. Johnson, realmente no  necessrio...  comeou.
	O que no  necessrio?
	Todo esse trabalho que est tendo comigo. Posso ficar em um hotel. Ou melhor ainda: por que no reservamos uma passagem no primeiro vo de volta para Nova York?
Mark olhou-a no mesmo instante.
	No posso deix-la fazer isso.
	Por que no?
	Ah... bem, no seria hospitaleiro.
	Agradeo a considerao  Kim respondeu , mas realmente preciso voltar.
Ela no tinha ideia de como pagar uma passagem de volta. S o que sabia era que no queria ficar.
	Lamento, Kimberly, mas no pode voltar para casa. Eu... eu prometi a Miriam que cuidaria de voc at que ela chegasse  ele forou um sorriso.
	No estou querendo fugir, sr. Johnson. S pensei em voltar para casa e retornar com Miriam, depois.
	Chega, Kimberly.
Ele falou como se estivesse se dirigindo a uma criana. Por trs daquele tom paciente, Kim notou certa irritao e cansao. De repente, o absurdo de sua situao atingiu-a como um soco.
	Por que est me chamando de Kimberly?  indagou.  Kim. Apenas Kim.
Ele passou a mo pelos cabelos, impaciente.
	Est bem. Kim.
Ela desviou o olhar. Sentia-se perdida, desorientada.
	Oua  Mark disse , sei que aqui no  agitado como em Nova York, mas a cidade tambm tem atraes interessantes. No quer pelo menos tentar ficar?
Kim pegou outra mala e colocou-a no cho.
	Isso  tudo  declarou, sem responder  pergunta.
	Otimo.  Mark pegou a mala pesada como se ela no passasse de uma sacola e dirigiu-se  sada.  Meu carro est estacionado do outro lado da rua. Siga-me.
Kim hesitou, pensando se no seria mais sensato voltar logo para Nova York. Como que lendo seus pensamentos, Mark passou o brao livre em torno dela.
 por aqui  avisou.
Assim que chegaram  calada, Kim desvencilhou-se do abrao. Parou um instante para admirar uma distante cadeia de montanhas, cujas silhuetas escuras contrastavam com o cu azul. Nunca ficara to longe de casa antes e, embora estivesse tremendo de insegurana por dentro, tinha de confessar a si mesma que gostara do lugar.
	Que horas so, sr. Johnson?  indagou, disfarando um bocejo.
	Sete e quarenta, mas seu organismo pensa que so nove e quarenta. A propsito, meu nome  Mark. Prefiro que me chame assim.
Kim assentiu, apesar de preferir continuar chamando-o de sr. Johnson, ou mesmo de tio Mark. Precisava erguer uma barreira formal entre ela e aquele homem. Ele era atraente demais para faz-la sentir-se imune.
Mark parou ao lado de um BMW azul-escuro e destrancou a porta.
	Pode entrar  disse a ela, antes de ir guardar a bagagem no porta-malas.
Kim acomodou-se no confortvel assento de passageiro e fechou os olhos. Ainda estava um pouco tonta. S o que desejava agora era uma boa noite de sono.
Percorreram o trajeto em silncio. Kim esforava-se em manter os olhos abertos para ir conhecendo a cidade, mas o sono e cansao estavam sendo mais fortes.
	Como est Minam?  Mark quebrou o silncio.
	Ela... est bem  Kim respondeu, sonolenta.
	Sabe, s vezes me preocupo com ela.
Kim foi tomada por uma onda de ressentimento. Miriam era a ltima pessoa no mundo com quem algum deveria se preocupar!
	Como ela est de sade?  Mark continuou.
Kim virou o rosto para a janela. Sabia que a maior parte do problema que Miriam dizia ter no corao era fingimento.
	Bem  respondeu.
	E financeiramente?
Kim deu graas porque nesse momento eles entraram em uma garagem. Ela aproveitou para mudar de assunto:
	Mora nessa casa?
	Sim, senhorita  ele brincou.
Tratava-se de uma construo toda branca, de aspecto tradicional. 
	 muito bonita  Kim comentou quando desceram do carro.  A propsito, voc  casado?
	No que eu saiba  Mark respondeu, bem-humorado.  Todavia, algumas mulheres j me acusaram de ser casado com minha profisso.
Ele colocou as malas no cho e abriu a porta da frente, acendendo as luzes em seguida.
	Mora sozinho nessa casa grande? Puxa...
Kim percorreu a vista pelo ambiente amplo c elegante.
	Sim. Comprei essa propriedade h um ano. No costumo cometer esse tipo de extravagncia, mas um dia passei de carro por essa rua e o lugar me chamou a ateno...
Mark continuou falando, mas Kim s ouvia as palavras por alto. Viu seu reflexo em um espelho que havia na sala e ficou impressionada com sua palidez e aspecto cansado. No era  toa que Mark estava lhe lanando olhares esquisitos.
	Vamos levar a bagagem direto para o seu quarto  Kim ouvia a voz dele como se esta estivesse longnqua.  Imagino que esteja com sono. Mas isso  normal, j que...
Aos poucos, as palavras foram se tomando distantes, vagas. A prxima viso de Kim foi a do cho chegando cada vez mais perto...
Kim abriu os olhos. O rosto de Mark estava a poucos centmetros do seu, observando-a com preocupao.
Pensando que sonhava, ela sorriu. Mas quando se deu conta da situao, sentou-se num impulso. Ou pelo menos tentou faz-lo.
	Fique deitada  Mark disse, gentil.
S ento Kim percebeu que estava deitada no sof e Mark sentado a seu lado. Seu casaco fora colocado sobre uma cadeira e as botas haviam sido tiradas, deixando  mostra o furo da meia do seu p direito.
	Beba um gole disso.
Mark ajudou-a a erguer a cabea e tocou a borda de um copo nos lbios dela. Kim tossiu quando o lquido ardente desceu por sua garganta.
	O que diabos  isso? Nitroglicerina?
-  conhaque. Desculpe, mas  s o que tenho.
Kim tomou outro gole da bebida. Mark tirara o palet e afrouxara a gravata. Seus ombros eram largos e o peito forte, ideal para aconchegar uma mulher pelo resto da vida... O perfume que emanava dele era delicioso, sedutor...
	Quando se alimentou pela ltima vez?  Mark perguntou.
Ela deu de orribros, embora soubesse muito bem que o nervosismo a impedira de comer durante todo o dia. Pensando melhor, no se alimentava direito h uma semana!
	Devia ter dito que estava com fome, Kim  Mark admoestou.  Teramos parado para comer algo no aeroporto.
Afastou os cabelos do rosto dela com dedos gentis. Kim ume-deceu os lbios, experimentando uma estranha sensao de desconforto.
	No estou com fome. Estou tonta.
	Acontece com algumas pessoas, devido  turbulncia do vo. Sempre fica assim quando viaja de avio?
	Eu... eu nunca notei  Kim corou.  Na verdade, essa foi minha primeira viagem de avio.
O rosto de Mark no mostrou nenhum sinal de divertimento, como ela esperava.
	Ficou nervosa?
	Um pouco.
Ele assentiu, compreensivo. Seus olhos eram incrivelmente azuis quando vistos de perto. Os lbios firmes, bem delineados...
	Esteve em uma altitude muito mais alta do que aquela  qual est acostumada. Mesmo depois de se alimentar, ainda passar um ou dois dias apoiando-se nas paredes.
	Maravilhoso.
	No se preocupe. Logo se sentir melhor. Pegue isso  entregou a ela o controle remoto da tev.  Vou preparar algo para comermos  disse e retirou-se para a cozinha.
Passaram a hora seguinte assistindo o noticirio e tomando uma canja leve. Ao final da refeio, Kim j se sentia bem melhor.
	Ok, mocinha  Mark disse quando ela terminou.  Est na hora de dormir.
Kim no protestou quando ele ajudou-a a ficar de p e subir a escada. Nem conseguia lembrar-se da ltima vez em que recebera tanta ateno de algum.
	Lembra em qual das malas guardou o pijama?  ele inquiriu, ajudando-a a sentar na cama.
	Naquela  Kim apontou.  Eu acho.
	Tudo bem. Fique a.
To logo ele se afastou, Kim deitou a cabea no travesseiro macio e esticou o corpo cansado sobre a cama.
Quando Mark retornou, j estava quase adormecida. Atravs dos olhos entreabertos, viu quando ele se aproximou, segurando o pijama.
Em seguida, mordeu o lbio de uma maneira que o fez parecer um garoto travesso. Olhou de Kim para o pijama e voltou a fit-la.
	Kim, voc me colocou num beco sem sada  disse mais para si do que para ela. Deu de ombros e, deixando o pijama sobre uma cadeira, cobriu-a com o lenol.  Boa noite  sussurrou, afagando os cabelos dela.
No momento em que a porta de fechou, Kim levou a mo ao local onde Mark a tocara. As pessoas precisavam de afagos como aquele. E ela passara a vida inteira sem receber nenhum.
Aninhou-se entre os lenis, imaginando como era bom sentir aquela sensao de bem-estar. Mesmo que ela fosse apenas passageira.
Mark preparou uma dose dupla de usque e sentou no sof.
Ainda tinha trabalho a fazer, mas sabia que no conseguiria se concentrar.
Quando vira Kim desmaiar, ficara muito apreensivo. A garota chegara a menos de uma hora e j estava lhe causando preocupao!
Ela era to delicada; muito leve para sua altura. E plida tambm. Sua beleza encontrava-se encoberta por algo que ele no sabia ao certo como definir.
Os cabelos ruivos eram bonitos, mas lhes faltava brilho. Os olhos expressivos possuam um tom acastanhado muito singular. . E a boca... Bem, melhor no pensar nela. O termo "convidativa" passou por sua mente, porm era mais sensato descart-lo.
Franzindo o cenho, olhou para o copo de usque. Kim no era como ele esperava. Naqueles olhos havia um brilho de vulnerabilidade para o qual Miriam no o havia preparado. Um olhar de menina desprotegida que chegava a ser quase irresistvel.
Bebericou um pouco do usque. Algo mais o perturbava. Kim era mais velha do que ele imaginara. S no sabia ao certo a idade que ela poderia ter.
Seu olhar pairou sobre a bolsa dela, sobre o sof. Observou-a por um longo tempo, imaginando se deveria mesmo fazer o que estava pensando.
Num impulso, tomou o restante da bebida de um s gole e pegou a bolsa. Precisava encontrar algum documento pertencente a ela. Apenas isso. Todavia, teve que primeiro se deparar com um estojo de maquiagem, escova, pente e, para sua surpresa, um livro intitulado Doenas infantis: diagnsticos e tratamento. Fitou o volume com olhar confuso.
Finalmente encontrou a carteira. Abriu-a  procura da identidade e o primeiro documento que viu foi uma carteira de motorista. A identidade estava logo atrs. Mark prendeu a respirao: Kim tinha vinte e dois anos! E faria vinte e trs logo no ms seguinte, trs dias antes do aniversrio dele!
Esperava encontrar mais coisas, como cartes de crdito ou uma boa soma em dinheiro, mas ficou espantado ao verificar que no havia mais nada na carteira de Kim, exc%to alguns trocados.
Como algum poderia embarcar em um vo, com inteno de comear uma nova vida, com apenas alguns trocados na carteira? S se ela tivesse dividido o dinheiro no restante da bagagem.
Com um suspiro, Mark recolocou todos os objetos na bolsa e cruzou os braos, pensativo. Afinal, quem era aquela mulher que nesse instante dormia no andar de cima de sua casa?
Mais importante: o que faria com ela at que Miriam chegasse? 

CAPTULO III

J era manh? Se fosse, Kim no queria acordar e ter que encarar o fato de que estava no Colorado, e no em Nova York." Todavia, no havia como fugir da situao. Por fim, abriu os olhos e colocou os ps para fora da cama devagar.
A luz do sol entrava pelas janelas, j que Mark esquecera de puxar as cortinas na noite anterior. O brilho daquela luz tornava ainda mais bonita a decorao do quarto, toda em tons de creme e bege. A moblia era delicada, bem feminina. O tipo de decorao que um homem escolheria para uma jovenzinha, Kim concluiu.
Ela atravessou o quarto em direo ao banheiro. No caminho, notou que a porta do quarto de Mark estava aberta e a cama perfeitamente arrumada. Ser que ele trabalhava tambm no sbado?
Aps uma longa chuveirada, com muito xampu e sabonete, Kim sentiu-se bem melhor. Sua aparncia tambm melhorara muito, concluiu, examinando seu reflexo ao espelho, aps voltar para o quarto.
Vestiu um jeans limpo, um suter cor-de-rosa e prendeu os cabelos quase secos em um coque alto, que a deixou com aparncia de adolescente. O penteado tambm serviu para esconder as pontas quebradas de seus cabelos.
Quando saiu do quarto, ouviu vozes no andar de baixo. Ento Mark estava em casa. Enquanto descia a escada, notou que o som vinha da cozinha. Reconheceu a voz profunda de Mark, mas a outra era feminina, muito aveludada.
 E ento? Quando  que irei conhecer essa sua protegida?  a mulher perguntou com um risinho.
Kim parou no fim da escada, ao perceber que o assunto da conversa era ela prpria. Sentou no penltimo degrau.
	Eu j disse que ela no  minha protegida. Suzanne. Quer mais um pouco de caf?
	Est escondendo algo de mim, no est?  a mulher indagou.
	Pare de me amolar, Suzanne. No tem outro lugar para ir?
	Tenho sim: quero ir l em cima tirar aquela menina da cama e ver o que voc est escondendo!
Pelo barulho que se seguiu, Kim deduziu que a mulher fizera meno de levantar e Mark a impedira. Ambos acabaram rindo. Kim abraou os joelhos e encostou o queixo sobre eles, tomada por uma inesperada solido. Estava claro que a convidada de Mark era algum especial.
	Ela descer logo  ele afirmou.  Ouvi o chuveiro ser ligado ainda h pouco. Ela no  nenhuma garotinha, Suzanne  acrescentou, hesitante.  Ela... far vinte e trs.anos dentro de poucas semanas.
	Voc est brincando!
Dessa vez a voz da mulher perdeu o tom de brincadeira.
	No estou, no. Vi em sua carteira de motorista, na noite passada.
Kim empertigou-se. Mark mexera na sua bolsa? Ficou chocada e, logo em seguida, furiosa.
	Talvez minha irm tenha dito algo que no ouvi  Mark justificou-se , mas juro que pensei que ela fosse uma adolescente.
	No acredito! Voc est com uma mulher de vinte e trs anos dentro de sua casa?
	Fale baixo!  ele sussurrou.  Ela s ficar aqui durante umas duas semanas.
	O mundo foi criado em muito menos tempo, meu amor.
	Voc mudar de ideia quando a vir.
Kim empertigou-se ainda mais, a respirao alterada de pura indignao.
	Ela no passa de uma criana  Mark acrescentou.  E uma que precisa de ajuda. De fato, pensei at em lhe propor que me d uma ajuda com ela.
Agora me deixou curiosa. Qual o problema com a garota? "Sim, qual o problema?", pensou Kim.
	Digamos que ela precise de uma "polida". Maquiagem, roupas, esse tipo de coisa.
	S isso?
	Sim, a menos que tambm consiga fazer algo com aquele sotaque do Brooklyn que ela tem.
Kim fechou os olhos, lembrando das insinuaes que Miriam fizera sobre a maneira como ela devia se comportar em meio a pessoas de classe mais alta. Na ocasio, Kim no acreditara na madrasta por considerar seu modo de agir perfeitamente aceitvel.
Porm, agora via que Miriam estava certa.	
	Isso diz respeito apenas  parte exterior, Mark  Suzanne comentou.  O que ela precisa por baixo?
Kim arregalou os olhos, apurando os ouvidos, mas no escutou resposta alguma de Mark.
	Hei  a voz da mulher tornou-se sria , estou enganada, ou notei um brilho de preocupao nesses lindos olhos azuis?
	Claro que no. J disse que no tenho tempo para me envolver com aquela garota. Aceitei ajud-la apenas em considerao  minha irm.

	Ah, bom. Chegou a me assustar por um momento. Pensei que o solteiro mais cobiado da cidade estivesse enfeitiado.
	Imagine! Por mim, ela nem teria vindo para c!
Kim mordeu o lbio, lutando para conter as lgrimas. Ento toda aquela gentileza da noite anterior fora apenas fingimento! Alis, disso ela j suspeitava.
"Bem, sr. Johnson, no precisa se preocupar. Quero ser mico de circo se ainda passar mais uma noite em sua casa!", pensou ela.
	Estou preocupado com a festa do prximo sbado  Mark prosseguiu.  Com... o que ela vai usar, por exemplo.
	Vai deix-la participar da festa?  a mulher soou horrorizada.
	Sei o que quer dizer, mas no poderei simplesmente tranc-la no quarto, no ?
	E como pretende justificar a presena dela para meu pai e seus clientes?
	Suzanne!  Mark alterou a voz.  No h nada a ser explicado. Ela  quase uma criana.  minha sobrinha.
	  Sobrinha postia  ela corrigiu.
	Sim, mas voc  a nica pessoa que sabe disso e, se no se importar em manter o segredo, gostaria de apresent-la como minha sobrinha.
Kim j ouvira o suficiente. Embora uma parte quisesse voltar para o quarto e chorar embaixo das cobertas, a outra estava to furiosa que venceu a primeira. Num impulso dirigiu-se  cozinha com passos firmes.
Mark levava a xcara aos lbios quando a viu. Parou o movimento no meio e seu corpo tomou-se tenso. Somente os olhos moveram-se sobre o corpo de Kim, analisando-a de alto a baixo, antes que ele engolisse seco.
A mulher que estava  mesa com ele, virou-se para olh-la, fazendo os cabelos loiros deslizarem sobre os ombros. Era muito bonita, como a voz indicara. Quando ela viu Kim, arregalou os olhos verdes e seu sorriso desapareceu.
Mark pigarreou.
	Est com uma aparncia, ahn, bem mais descansada essa manh  comentou. Ficou de p, empurrando a cadeira para trs desajeitadamente.  Suzanne, essa ...  hesitou .	Kim. Kim, essa  Suzanne Brigtitman, uma amiga minha.
	Querido, creio que de uns tempos para c j no sou apenas isso  Suzanne corrigiu.
Apesar da situao embaraosa, Kim estendeu a mo e conseguiu at sorrir.
	Prazer em conhec-la  disse.
	Ol, Kim. Bem-vinda a Colorado Springs.
	Obrigada. Ainda tem caf, Mark?
Ele olhou-a como se Kim houvesse lhe pedido que resolvesse uma complicada equao matemtica.
	Uh, sim  respondeu, por fim.  Tambm fiz suco de laranja.
	S o caf est timo  Kim informou, tambm sentando-se  mesa.
	Quanto tempo ficar por aqui antes que sua me venha busc-la, Kim?  Suzanne inquiriu.
Kim olhou-a por um instante. Iria embora agora mesmo se j tivesse pegado as malas, mas esse era um segredo que ningum Precisava saber.
	No tenho certeza  respondeu.  Depene de quando ela conseguir vender nossa casa.
	Bem, espero que no se sinta sozinha e entediada. Mark anda to ocupado nos ltimos dias...
	Sim, ele me disse. Estou acostumada a ficar sozinha.
Kim encheu a xcara de caf.
	O que voc faz, Kim?
	Eu... trabalho. E voc?
Ela no queria ser indelicada, s desejava afastar o foco da conversa de si prpria. Entretanto, da maneira como Mark a fitou, Kim suspeitou haver cometido algum deslize.
	Sou advogada  Suzanne respondeu, seca.
	 mesmo?  Kim podia jurar que Suzanne passava todo o tempo visitando butiques e fazendo as unhas.  Que maravilhoso!
Suzanne ignorou o comentrio e ficou de p.
	Desculpe, mas no posso me demorar mais, Mark. Tenho um compromisso com clientes daqui a meia hora.
Mark ajudou-a a vestir o casaco vermelho, exatamente do mesmo tom do batom e das unhas.
	Talvez na prxima semana possam se conhecer melhor sugeriu ele, antes de segui-la at a porta da cozinha.
Assim que os dois passaram por Kim, Suzanne dirigiu-se a Mark sem fazer muito esforo para abaixar a voz.
	Entendo o que quis dizer a respeito dela, Mark. Gostaria de poder ajudar, mas...
Ela meneou a cabea como que sugerindo que se tratava de um caso perdido. Mesmo j estando furiosa, Kim conseguiu se sentir ainda mais magoada.
Suzanne passou a mo pelo pescoo de Mark e beijou-o. Kim desviou o olhar, tomada por um imenso desapontamento.
Depois que Suzanne se foi, ele voltou a se sentar diante de Kim.
Observou o suter cor-de-rosa e aos poucos seu olhar foi subindo pelo pescoo delicado, at pairar sobre o rosto angelical. Algo no modo como ele a fitou, fez o corao de Kim se acelerar.
	Como est a tontura?
	Ela vai e volta.
	Fique tranquila. Ela no vai durar muito.
Mark ficou de p e levou a xcara para a pia. Vestia uma camisa cinza-prola, cala, gravata e suspensrios pretos. Kim aproveitou a oportunidade para observar cada detalhe. Nunca vira um homem com aparncia to sbria e sexy ao mesmo tempo. Kim desviou o olhar, dando-se conta de sua insensatez.
Suzanne tambm trabalha para o pai dela?
	Como sabe que eu...?  Mark interrompeu-se.  Sim.
	Faz tempo que namoram?
Mark franziu o cenho, levando outros objetos para a pia.
	Alguns meses. No  nada srio. Ela estava brincando quando disse que no era apenas minha amiga.
Kim no acreditou nele. Mark voltou a se sentar diante dela.
	Preciso sair daqui a pouco, mas se tudo correr bem, estarei de volta ao meio-dia ou uma da tarde.
Kim olhou para o relgio. Quinze para as nove.
	No precisa se apressar por minha causa.  Afinal, ela precisava de tempo para pegar as malas e ir embora.  O que acontecer no prximo sbado?
- Receberei umas quarenta pessoas aqui em casa.
	Para jantar?
	No. Oferecerei uma festa.
	Ah. Ser divertido.
	Espero que sim  Mark replicou, incrdulo.
	Se est com receio que eu a estrague...
	Oh, no. Isso nem me passou pela...
	No espero ser convidada  Kim interrompeu-o.  No conheo seus amigos.
	No  isso, Kim. O problema no  voc  ele refutou sem encar-la.  Se no estou parecendo entusiasmado  somente porque no estou preparado para receber convidados aqui. A casa no est pronta para isso.
Kim percorreu os olhos pela cozinha, que, como os demais aposentos da casa, poderia muito bem ser includa em uma revista de decorao.
Tenho certeza de que se sair bem no final  assegurou-o.
Permaneceram em silncio por algum tempo. Mark foi o pri meiro a falar:
	Bem, Kimberly, agora preciso ir andando. Aproveite o tempo em que eu estiver fora para desfazer as malas. Quando eu voltar, talvez possamos ir juntos ao corretor de imveis.
	Sim, claro  Kim respondeu, olhando para o teto.
No precisava visitar nenhum corretor de imveis e muito menos dos favores de Mark!
Ele vestiu o palet que acentuava seu porte atltico, pegou a maleta de executivo e encaminhou-se para a porta. Antes de sair, voltou-se para Kim:
	A propsito, voc est... bem descansada hoje.
Kim forou um sorriso. Provavelmente, "descansada" era a nica palavra que ele utilizava como elogio.
Dez minutos depois de Mark haver partido, Kim colocava a ltima mala diante da porta. O sol que entrava pelas janelas, iluminava os aposentos que ela no notara no dia anterior. Havia uns trs cmodos vazios. Realmente a casa no estava preparada para uma festa, como Mark dissera. "Mas isso  problema dele!", lembrou a si mesma.
Mal havia dado dois passos em direo  porta, quando esta se abriu de repente. Mark entrou de uma vez, quase tropeando nas malas. Kim empalideceu.
	O-o que est fazendo aqui?  balbuciou.
Mark limitou-se a olhar dela para as malas e logo ficou claro que ele entendera qual a inteno de Kim. Respirou fundo, impaciente.
	No pode me obrigar a ficar!  Kim levantou o dedo diante dele.  Tenho mais de vinte e um anos e posso tomar minhas prprias decises!
Mark passou a mo pela nuca.
	Se eu no estivesse to preocupado com outros assuntos, iria lhe dar umas boas palmadas.  Ele abriu mais a porta e completou:  Tudo bem. Pode sair, estou pouco ligando!
Kim ficou aturdida. Engoliu seco e deu um passo  frente. 
	Est falando srio?	
	Sim. V! A porta est aberta.
Kim pegou uma das malas.
	Espero que no esteja zangado.

	Eu? Zangado? E por que deveria? S porque estou prestes a me atrasar para um encontro com um cliente e no posso perder tempo com voc agora? S porque voc prefere ficar por a, abandonada em alguma esquina, em vez de aproveitar a oportunidade que Miriam est lhe dando? Imagine se tenho motivo para ficar zangado!  ironizou.
	Abandonada em uma esquina?  Kim estreitou o olhar, incrdula.  Lamento, mas estou decidida a ir embora. No perteno a esse lugar. Quanto mais cedo eu partir, mais cedo conseguir voltar  sua preciosa vida normal.
Dizendo isso, fez meno de sair, mas Mark segurou-a pelo brao.
	Espere. No posso deixar que faa isso, Kim. Fiz uma promessa a Miriam.
	Eu o liberto da promessa.
Ela desvencilhou-se dele e deu outro passo  frente.
	Diga-me uma coisa, Kim: o que h de to importante em Nova York para que no veja a hora de voltar? E algum namorado? Amigos?
Kim virou-se para olh-lo.
	Nova York? Sinto desapont-lo, mas irei para a primeira penso para moas que encontrar.
O rosto dele tornou-se confuso.
	No estou entendendo. Por que est fazendo isso?
Kim desviou o olhar.
	Preciso ir.

	Kim!  a urgncia com que Mark a chamou impeliu-a a parar.  Essa sua deciso tem algo a ver com a conversa que tive com Suzanne?
	Talvez. Oua, Mark, no quero ficar aqui, tanto quanto sei que voc no me quer em sua casa. Acredite-me: eu no teria vindo se no fosse por aquela passagem que Miriam j havia comprado. No queria ser um incmodo para voc. Estou acostumada a me virar sozinha. Por isso quero ir embora.  simples.
	Minha irm no vai gostar disso  Mark avisou.
	No se preocupe com Miriam. Ligarei para ela esta noite.
	Mas...
Kim ajeitou uma sacola no ombro, pegou outra mala e saiu em direo a um ponto de txi, mais adiante.
O motorista j estava colocando a bagagem no porta-malas quando Mark voltou a cham-la.
	Kim, desculpe-me.
Ela prendeu a respirao. Embora no o conhecesse muito bem, sabia que Mark no era do tipo de homem que costumava se desculpar com frequncia.
Mesmo assim, decidiu seguir em frente. Entretanto, o txi mal havia feito a curva da esquina seguinte, quando dvidas comearam a assalt-la. A ideia de dividir um quarto com estranhos no a agradava nem um pouco.
Porm, se voltasse para a casa de Mark, no alimentaria nenhum tipo de expectativa, como fizera at agora. Manteria-se neutra e distante, a fim de evitar sofrimentos posteriores.
Sentindo-se uma completa idiota, inclinou-se para a frente e pediu ao motorista que voltasse. Poucos minutos depois, batia  porta de Mark, com o corao acelerado.
A porta foi aberta quase no mesmo instante. Kim tomou coragem e ergueu o queixo ao declarar:
	Pensei melhor no que voc disse e resolvi ficar.
Mark sorriu, visivelmente aliviado.
	Ento entre. Vamos levar essas malas l para cima  disse e pegou uma delas.
	Espere um pouco. Antes de ficar, primeiro quero esclarecer algumas coisas.
	Sim?
	Mark, eu...  Kim no conseguia encar-lo.  Desculpe pelo modo como agi. Essa mudana foi muito radical para mim. Passei semanas preocupada com ela, incerta se havia sido a melhor deciso.
Mark colocou a mala no cho e olhou para Kim, pensativo.
	Creio que me excedi um pouco  confessou.  Ando tenso devido ao meu trabalho e ao fato de dividir minha casa com outra pessoa. Isso nunca me aconteceu antes, e acho que
meus receios sobre o que voc pode fazer  minha vida foram alm do meu controle.
Kim assentiu, aceitando a explicao como um pedido de desculpas.
	Tambm no ando com muita calma ultimamente  disse a ele.
	Promete no tentar fugir de novo?
Ela balanou a cabea que sim.
	E espero que acredite-me quando digo que no precisa se preocupar comigo  salientou.  Desejo ficar sozinha, como se fosse uma estranha, porque, no fundo,  exatamente isso que sou para voc. Quero apenas um lugar para dormir at ter oportunidade de arrumar um emprego e um apartamento.
	No que pretende trabalhar?  Mark perguntou.
	Qualquer coisa. Contanto que seja um emprego decente.
Quero economizar algum dinheiro, sabe. Bem, o que estou querendo dizer  se no podia me dispensar de pagar o aluguel para que eu possa economizar. Em troca, cuidarei da casa e quem sabe at possa lhe dar uma mo para prepar-la para a festa.
	Pelo amor de Deus, Kim. Voc  hspede aqui. Nunca tive inteno de lhe cobrar aluguel e muito menos de explor-la em servios domsticos.
Kim balanou a cabea com veemncia.
	No. Nada de favores. Quero ser tratada como algum que alugou um quarto, ok?
	Mas... por qu?
	Porque  mais fcil lidar com relacionamentos comerciais. Voc sabe exatamente o que esperar deles e, mais importante: o que no esperar. No  sua culpa. Afinal, fui eu que apareci aqui procurando por um tio. Foi injusto para voc e muito idiota de minha parte.
Mark passou a mo pelos cabelos.
	Para que est economizando dinheiro?  indagou.
Kim olhou para o cho, enrolando um cacho de cabelo que se soltara do coque.
	Est com algum problema?  ele insistiu.
	Problema?  Ela notou que Mark corou.  Quer dizer... gravidez?  ela riu, atnita.  Claro que no!
	Ento o que ?
O primeiro pensamento que veio  mente de Kim foi o dinheiro que teria de gastar com o aluguel de um apartamento, alimentos e roupas para ela mesma. O pensamento seguinte foi que isso se daria em breve j que Miriam e Theodore, o amante que a madrasta arrumara aps a morte de seu pai, pretendiam se livrar dela o quanto antes.
	Digamos que tenho minhas razes, ok?
Mark exalou um longo suspiro.
	Est bem, Kimberly, faremos do seu jeito. No terei dificuldade em lhe arrumar um emprego. Isto , se aceitar minha ajuda.
	Prefiro que me arrume um jornal e um roteiro de nibus.
Tenho trs cartas de recomendao de empregos anteriores e muita experincia. Conseguirei sozinha.
Mark meneou a cabea.
	Nunca vi algum com um senso de independncia to teimoso!  Voltou a fit-la:  Tem carteira de motorista, no tem?
Kim mordeu o lbio, evitando um comentrio malcriado. Ambos sabiam muito bem a resposta.
	Sim  disse simplesmente.
	timo.  Mark hesitou.  Oua, tenho dois carros. Voc poderia pegar o cherokee. Ser bem mais fcil do que ficar circulando de nibus.
Kim andou at a porta que continuava aberta e olhou para fora. Ouviu os passos de Mark atrs de si.
	Faria isso?  Ela virou-se de repente, quase esbarrando nele.
	Isso o qu?
	Emprestar-me seu carro.
	Claro.
Kim observou o rosto atraente, procurando sinais de intenes suspeitas.
	Por qu?
	Por qu?  Mark repetiu, surpreso.  Ora, Kim, ser possvel que ningum nunca a ajudou antes?
Ela desviou o olhar no mesmo instante.
	Acho melhor ir desfazer as malas.
Subiu a escada rpido, antes que Mark protestasse. 
As roupas de Kim no chegaram a preencher nem metade do guarda-roupa. A maior parte de seu vesturio ficara em Nova York, junto com o restante de seus pertences. Deixara tudo bem embalado, para o caso de Miriam mandar transport-los juntamente com a mudana. Todavia, agora desejava ter trazido mais coisas consigo.
Observou seu reflexo ao espelho, lembrando dos comentrios de Mark sobre sua aparncia. Estaria to mal assim? Embora suas roupas no fossem caras, no chegavam a ser deselegantes. Jeans e suter. Sua imagem era a de uma pessoa comum.
Bem diferente de Suzanne, no restava dvida. Suzanne era elegante, fina mesmo. Alm disso, tinha um rosto de traos perfeitos e cabelos maravilhosos.
Kim tirou os grampos que prendiam os seus e passou os dedos pelos cachos ruivos. Se ao menos encontrasse um bom cabeleireiro...
Ouviu uma leve batida  porta.
	Kim?
O que Mark queria agora? Pensou ter sido bem clara: nada de envolvimento, favores e principalmente expectativas. Foi at a porta e abriu-a.
	Oi  ele sorriu.  Comprei jornais de hoje. Se quiser dar uma olhada nos anncios de emprego...
Kim notou que ele mudara o terno sbrio por jeans e um suter preto. Sua imagem estava casual e mscula ao mesmo tempo.
	Obrigada.
Kim recebeu o jornal sem sorrir. No se tratava de um favor, e ela no estava se sentindo grata. No mesmo.
	Kim, que tal sairmos um pouco? Tirei a tarde de folga para ficar com voc.
	Obrigada, mas no estou interessada em conhecer lugar algum. Use o tempo livre para voc mesmo.
Ela fechou a porta antes que ele dissesse mais alguma coisa. Ouviu um resmungo incompreensvel e passos firmes descendo a escada.
Sentou na cama e leu a seo de empregos do jornal. Quando terminou, comeou a perambular pelo quarto. Ouvia sons esquisitos vindos do andar de baixo. O que Mark decidira fazer, sem dvida era um bocado barulhento.
Releu os anncios que havia circundado com caneta. Se ao menos tivesse uma mquina de escrever, poderia datilografar algumas cartas, para treinar um pouco. Detestava ter que amolar Mark, mas no lhe restava alternativa.
	Oi  disse algum tempo depois, aparecendo na sala de estar.
Mark estava sobre uma escada, desparafusando o trilho de uma cortina.
	Oi  respondeu, seco.
	Preciso de um favor. Tem uma mquina de escrever para me emprestar?
	Ali  indicou a sala de jantar com um gesto de cabea.
	Obrigada. O que est fazendo?
	Algo que j deveria ter feito h muito tempo. Entregue-me aquele alicate, sim?
Kim pegou a ferramenta e entregou a ele.
	Mark, falei srio quando me ofereci para ajudar. Nao ter tempo suficiente para arrumar tudo sozinho para a festa.
	Pegue  ele entregou o alicate de volta, seu rosto continuava inexpressivo.
	H... h algo que eu possa fazer?
	No, a menos que saiba como transformar essa baguna em uma casa no prazo de uma semana. A casa de um advogado ao qual voc confiaria sua prpria vida, ou pelos menos um negcio de dez milhes de dlares e uma promoo.
Kim percorreu o olhar pela sala.
	Isso  fcil  disse.  Onde est minha varinha de condo?
Mark terminou de desparafusar o trilho, que caiu com o peso do tecido. H anos que aquela cortina no era lavada e uma enorme nuvem de poeira o encobriu. Ele comeou a xingar e abanar a mo, tentando respirar.
	Tudo bem, Mark?  Kim aproximou-se da escada.
Quando a poeira baixou, ele espirrou e o movimento fez uma nuvem de p sair de seus cabelos. Kim no pde deixar de rir.  No tem graa nenhuma  ele ralhou.
	Claro que no.
Com muito esforo, ela conseguiu ficar sria. Mark desceu da escada e tirou a poeira dos cabelos e da roupa, ou pelo menos tentou faz-lo.
	O que espera fazer com esta sala antes do sbado?  Kim perguntou.
	Transform-la ao menos em um lugar apresentvel. Com o tempo que resta, isso j seria mais que suficiente. Alguma ideia?
	Que tal cancelar a festa?
Mark lanou-lhe um olhar nem um pouco simptico.
	Bem  Kim prosseguiu , quando terminar de tirar as cortinas, poderei lavar as janelas e as paredes tambm. Aposto que uma boa lavada far com que fiquem com um aspecto bem melhor. S h um problema.
	Qual?  Mark perguntou, ansioso.
	Mveis. Voc no tem nenhum.
	Hmm...  ele coou o queixo.  E se eu remover a mesa da cozinha para a sala de jantar e preencher o restante do espao com alguns mveis da sala de estar? No? No gostou da ideia?
Kim mordia o lbio para conter o riso. Mark tinha um charme peculiar para lidar com situaes difceis que ela ainda no havia percebido.
Ele ergueu as mos.
	No pensei que a ideia fosse to ruim assim.
Kim alisou o mrmore da lareira.
	Essa casa  muito bonita  comentou ela.
	Eu sei. Foi por isso que a comprei.

	O que acontecer de to importante nessa festa? Seu chefe ir comparecer?
	Sim. Trs deles, juntamente com as esposas, alm de meus amigos, scios, clientes...
	Ah... agora estou entendendo. E sua promoo depender da maneira como receb-los?
Mark arqueou a sobrancelha.
	Claro que no. De onde tirou essa ideia? Meu trabalho  bom, Kim. Sou muito cauteloso em tudo que fao e  nesses termos que eles avaliaro meus mritos.
	Claro  ela concordou.
Porm, o modo desolado como Mark olhou para o cho empoeirado, a fez notar que havia algo mais na balana.
Kim aproveitou o momento de distrao para percorrer o olhar pelo corpo de formas atraentes. As pernas musculosas pressionadas contra o jeans justo...
Desviou a vista de repente, tomada por uma onda de embarao. Deus, o que estava acontecendo com ela? Se comeasse a prestar ateno no quanto Mark era atraente, morar na mesma casa que ele se tornaria um verdadeiro suplcio!
	J-j pensou em alugar mveis?  gaguejou.
	No  ele olhou-a, surpreso.
	Ento creio que  a melhor sada.
Um sorriso confiante esboou-se nos lbios de Mark.
	Otima ideia!  exclamou.  Pegue um casaco que vamos sair.
	Ns dois?
	Sim. Voc se ofereceu para ajudar, no foi?
Kim tentou se convencer de que faria aquilo apenas para retribuir o favor que Mark estava lhe prestando ao deix-la permanecer na casa.
Todavia o brilho que viu em seus prprios olhos, ao passar diante do espelho da sala, era inconfundvel. Indicava que no fundo ela estava disposta a prestar mais que um simples favor. Muito mais...

CAPITULO IV

Mark no sabia ao certo como agir enquanto andava pela loja de aluguel de mveis. Costumava ser uma pessoa bastante controlada, porm, desde a chegada de Kim j no sentia a mesma autoconfiana de antes.
	Essa loja  muito boa  Kim sussurrou-lhe a certa altura.
Mark gostava quando ela falava naquele tom de confidncia. Oh, olhe! Eles alugam at quadros! O que acha de alugar alguns?
Ela se comportava como uma criana em uma loja de brinquedos. Olhava tudo com uma ex-presso de encantamento estampada no rosto.
Para surpresa de Mark, Kim conhecia bem vrios estilos de mveis e lhe dava as sugestes certas quando era preciso.
	Onde aprendeu tanto sobre decorao?
	Mas no sei nada sobre esse assunto  ela riu como se a ideia fosse absurda.  Apenas leio revistas como muitas pessoas.
	Ento gosta um bocado de ler, no ?
	Digamos que sim.
Mark notou que o rosto de Kim estava mais corado, os olhos brilhantes e o belo sorriso transmitia uma alegria que vinha de dentro. S agora via que ela era mais bonita do que ele reparara a princpio.
De sbito, Kim percebeu que Mark a observava. Seu sorriso se desvaneceu.
	O que foi?  ela perguntou na defensiva.
	Nada.
	Estou me excedendo, no ? Desculpe. Afinal, a casa  sua, a festa tambm...
	No, est tudo bem. Voc s est sendo natural e gosto de sua espontaneidade. 
No mesmo instante, Mark se arrependeu de haver dito aquilo. No apenas ultrapassara a linha do no-envolvimento como tambm faria Kim se dar conta de qu fizera o mesmo. O resultado foi ela permanecer sria durante o resto das compras.
No estacionamento, ele abriu a porta do carro para ela.
	At que foi divertido, no foi?
Kim entrou no carro sem encar-lo.
	Sim  respondeu.  Os aposentos ficaro bonitos, pode ter certeza.
	Obrigado pela ideia, Kim.
Ela respondeu com uma leve inclinao de cabea. Mark sentou-se atrs do volante e segurou-o com firmeza. Aquelas crises de silncio estavam comeando a aborrec-lo. O temperamento de Kim lembrava-lhe uma represa: calma na superfcie, mas com correntes turbulentas por baixo. Gostaria de saber o que a tornara to desconfiada e qual o motivo da vulnerabilidade que havia naqueles olhos. Segundo ela mesma dissera, era a mudana sbita para um lugar distante daquele onde fora criada, mas ainda assim Mark tinha a impresso de que Kim escondia mais receios do que este simplesmente.
Ela continuava em silncio, mas enquanto conduzia o carro, Mark no deixou de notar o interesse com o qual Kim observava as ruas e paisagens. Aquilo o levou a fazer um caminho diferente.
	Esse no  o mesmo caminho pela qual viemos  Kim empertigou-se no assento.
	Apenas uma pequena mudana de planos.
Mark circundou um quarteiro e entrou pela lateral de uma avenida larga e movimentada. Enquanto dirigia, imaginava o que poderia mostrar a Kim. A Academia da Fora Area? O Centro de Treinamento Olmpico? Valeria a pena tentar mostrar algumas atraes tursticas da cidade? Kim continuava to calada que ele no teve certeza se ela apreciaria a ideia.
	E ali onde trabalho  apontou a certa altura do caminho.
	Meu Deus...
Kim virou-se no assento quando passaram diante da imponente construo em estilo vitoriano que fora convertida em um prdio de escritrios.
Mark conteve o riso diante do olhar espantado de Kim. Antes de voltar para casa, ele levou-a para conhecer outros lugares da cidade. O Jardim dos Deuses foi o primeiro deles. Tratava-se de uma famosa formao rochosa e o entusiasmo que Kim demonstrou ao v-las no desapontou Mark.
Entretanto, assim que chegaram em casa, ela se retirou para o quarto, aps dizer apenas um "obrigada pelo passeio". Depois disso, ficou datilografando pelo resto da tarde.
"Bem, pelo menos tentei", pensou Mark. "No posso fazer nada se ela no apreciou muito o passeio".
Descongelou um jantar leve para si mesmo e avisou Kim de que havia uma poro no forno, se ela sentisse fome mais tarde. Em seguida, foi para a casa de Suzanne.
Era at bom que Kim mantivesse aquela distncia. O mais sensato era que eles no se envolvessem, como ela mesma sugerira desde o incio.
O que estava precisando era de uma noite com Suzanne. Ela sim era uma mulher graciosa, bonita e muito mais interessante. Talvez a companhia de Suzanne conseguisse apagar essa impresso de que seu mundo estava virando de cabea para baixo. 
Kim sentou na cama com as pernas cruzadas sob o corpo. Pegou o dirio e comeou a escrever.
"A poeira daqui  vermelha. Vermelha! Mal pude acreditar quando vi! A toda hora pedia para Mark parar o carro para que eu pudesse v-la de perto.
Visitamos o Jardim dos Deuses, com suas formaes rochosas de tirar o flego. Quando se olha para aquele lugar, parece at que se est em outro planeta! No sei se Mark ficou desapontado com minha falta de entusiasmo, mas o problema  que eu nem conseguia falar devido  emoo.
A cidade  grande. H muito espao por toda parte e o cu  mais azul do que em Nova York. O ar  puro, gostoso de se respirar. E as montanhas ento! Elas circundam a cidade, deixando-a com um ar de mistrio, encantamento...
Estou tentando no me envolver muito com as coisas. Tenho receio de ficar empolgada e querer ir alm de minhas possibilidades. Vivo repetindo para mim mesma que o melhor  observar tudo com indiferena, mas  que s vezes  to difcil!
Mark  to interessante quanto a cidade. Em um mundo diferente, onde idade, educao e classe social no fossem questes importantes, talvez pudssemos ser amigos. s vezes, penso que poderamos ser at mais que isso."
Kim releu a frase que acabara de escrever e sentiu o corao se acelerar. De onde viera tal ideia?
"Preciso arrumar um emprego e sair logo dessa casa", escreveu rpido. "Caso contrrio, sei que meu corao e minha alma estaro perdidos".
Quando Mark desceu a escada, na manh seguinte, Kim j estava lavando a parede da sala de jantar.
	Oi  ela o cumprimentou.  Tudo bem?
A resposta de Mark foi um resmungo incompreensvel.
	Estou mesmo sentindo cheiro de caf?  ele perguntou.
	Hum-hum. E pezinhos de ma que acabaram de sair do forno.
Mark arqueou uma sobrancelha.
	Mriam ensinou-a a fazer massas? Ela costumava fazer uns pezinhos que eu adorava quando era criana.
	Oh, no. Mriam no...  Kim interrompeu-se.
Nem conseguia lembrar a ltima vez em que vira Miriam cozinhar, mas no quis estragar a lembrana de Mark.
	O que disse?  ele perguntou.
	Sim, Miriam me ensinou tudo que sei.
Kim aproveitou que estava de costas para ele e revirou os olhos, indignada consigo mesma pelo que acabara de dizer.
Mark foi  cozinha. Voltou algum tempo depois, bem mais alerta. Comeou a dobrar as mangas da camisa.
	O que est fazendo?  Kim indagou.
	Preparando-me para ajud-la, oras.
Dizendo isso, pegou outra esponja e molhou-a na gua.
Ao final da tarde, terminaram todo o servio. Paredes lavadas, janelas limpas, cho impecvel.
Sentada com as costas apoiadas na parede, Kim olhou para sua prpria imagem refletida no cho polido. Sorriu, satisfeita.
	Ficou muito bom, no acha?  perguntou a Mark.
Ele sentou-se ao lado dela.
	Sim. Muito bom  respondeu, admirando a lareira que levara mais de duas horas para limpar.
Um sorriso insinuou-se em seus lbios, sinal de sua satisfao. 
O som de um carro parando em frente a casa chamou a ateno de Kim.
	Deve ser Suzannc  Mark avisou.  Mas o que ser...
	Levou a mo  testa.  Esqueci! Ns amos examinar um caso no qual ela est trabalhando  explicou com um longo suspiro.
A campainha soou e antes que algum dos dois pudesse se mover, Suzanne apareceu  porta.
	Ora, ora... Olhem s para esses dois malandros  disse sorrindo.  O que andaram fazendo?
Ela olhava de um para o outro, sem deixar de notar o quanto estavam prximos.
Mark ficou de p e levou-a para a sala de estar, oferecendo uma desculpa defensiva.
Assim que ficou sozinha, Kim fechou a escada e levou-a para outro cmodo, no qual pretendia trabalhar no dia seguinte.
	Kim?
Ela sobressaltou-se.
	Sim, Mark.
	Importaria-se de tirar umas duas pizzas do freezer e coloc-las no microondas?
"Pizza no microondas?", pensou ela.
	Claro  respondeu disfarando uma careta.
Pelo visto, Mark vivia de comidas congeladas. De vez em quando elas at eram prticas, mas no era bom com-las sempre.
Kim foi  cozinha e examinou os inmeros enlatados. Aquele era o tipo de alimentao de pessoas solitrias. "Tolice!", pensou no mesmo instante. S porque Mark morava sozinho no significava que ele era solitrio.
Ela abriu a geladeira e encontrou alguns legumes e verduras em bom estado. Decidiu preparar uma refeio fresca. Com certeza Mark iria gostar muito. Quanto a Suzanne... Ora estava pouco ligando para o que ela diria ou acharia! 
A semana transcorreu com muita atividade. Comeando na segunda-feira, Kim dividiu a faxina da casa com mais duas mulheres, uma contratada de uma agncia e a outra a prpria empregada de Mark, que, em circunstncias normais, s aparecia uma vez por semana.
Mark insistira em utilizar ajuda extra e Kim no recusara a sugesto. Havia mesmo muito servio a ser feito e ela prpria tinha outros assuntos a resolver, como preencher fichas de emprego e fazer entrevistas.
Tambm passava algum tempo andando de carro, com o propsito de conhecer melhor a cidade. Encontrou uma biblioteca e foi logo verificar os dois ltimos livros sobre cuidados infantis que haviam sido lanados. Em seguida, foi ao mercado e comprou um bom estoque de alimentos frescos.
Na tera, decidiu procurar um cabeleireiro. Ligou para Suzanne para perguntar se ela conhecia algum. Suzanne forneceu o endereo do salo que ela frequentava. Kim quase desmaiou na hora de pagar a conta. Todavia, quando se olhou ao espelho, concluiu que valera a pena. At que enfim encontrara algum que lhe dera o corte e a permanente com os quais ela sempre sonhara. A noite, quando Mark a elogiara, concluiu que cada centavo que gastara tinha valido a pena.
Quando Miriam ligou na sexta-feira para ter certeza de que a enteada estava no Colorado, Kim sentiu-se embaraada por ela mesma no ter feito a ligao antes. Assegurou Miriam de que estava bem e ficou sabendo que no havia novidade alguma quanto  venda da casa.
 H um casal que se mostrou muito interessado em compr-la  Miriam comentou, mas tenho a impresso de que as providncias ainda duraro duas ou trs semanas.
Quando Mark chegou, tudo estava na mais perfeita ordem. Deixou a pasta de lado, afrouxou a gravata e andou devagar, observando cada detalhe dos aposentos: as cortinas que Kim levara horas para passar, os tapetes orientais que ela escolhera, o brilho do lustre da sala de jantar.
Enquanto esperava pela reao de Mark, Kim sentiu a respirao alterada, devido  ansiedade. Sabia que o acordo inicial havia sido o de no se envolverem, mas no conseguia conter a expectativa de saber a opinio dele.
	Muito bom  ele disse, por fim, com um sorriso danando nos lbios.
	Gostou mesmo?
	Est brincando? Esi incrvel! Venha aqui  ele pediu, estendendo a mo para ela.
Kim aproximou-se com certa relutncia. Quando deu por si j estava nos braos de Mark, sendo estreitada num abrao pleno de agradecimento.
	Obrigado, meu anjo. No tem ideia do quanto estou grato.
"Meu anjo?" Kim mal acreditou no que ouvira! Fechou os olhos com fora, lutando para afastar da mente a viso, a proximidade, a fragrncia de Mark. Entretanto, todas suas tentativas revelaram-se vs. Quando ele a soltou, estava trmula.
	Kim, voc est bem?
	Uh... sim. Ainda deve ser algum efeito tardio da viagem de avio.
Ao se afastar, vislumbrou sua imagem de relance no espelho da sala. No gostou do que viu: os olhos brilhavam e as faces haviam adquirido um leve rubor.
Estava agindo feito uma idiota, ao se importar com um abrao de agradecimento. Suzanne era o nico tipo de mulher pela qual Mark se interessaria.
	Deve estar exausta  Mark conjecturou.  Que tal sairmos para jantar fora?
	Obrigada, mas coloquei um prato no forno que j deve estar quase pronto.
	Desse jeito vai acabar me acostumando mal, Kimberly.
Dizendo isso, tirou o palet e deixou-o sobre uma cadeira.
	Bem, mas no v se acostumando demais  ela replicou.
 Na prxima segunda comearei a trabalhar e no poderei mais cozinhar para voc.
	J arrumou emprego?
	Sim. Dois, alis. Recebi vrios telefonemas, mas selecionei os empregos que achei mais convenientes. Aceitei um para trabalhar  noite como garonete por tempo integral. E quatro dias por semana, farei um servio leve em um escritrio no centro da cidade.
Mark caminhou at o bar e serviu-se de uma dose de usque. Olhou para o copo e ficou em silncio, com ar pensativo.
	Meus parabns, Kim  disse finalmente, aps tomar um gole da bebida. 
No sbado pela manh, Kim deixou cair uma poro de acar na mesa da cozinha. Mal conseguia acreditar no quanto estava nervosa. Estranho, mas no havia motivo para estar assim. Nem participaria da festa de Mark!
	Kim, a florista vai chegar logo  Mark avisou, ajudando-a a limpar o acar que ela derramara , mas precisarei dar um pulo no escritrio.
Kim assentiu, aceitando a incumbncia de orientar a mulher que cuidaria da decorao.
	Voc  um anjo  Mark agradeceu.  Esta tarde quero que v a uma butique e compre algo para usar  noite  disse e tirou o talo de cheques do bolso.
Kim empalideceu. Mark olhou-a em silncio por um instante.
	No sei de que outra maneira posso retribuir o que fez por mim durante essa semana.
	Mas eu pensei... Eu no planejava ficar aqui esta noite...
Mark tornou-se confuso.
	Voc tem que ficar, Kim. Preciso de voc.

	Precisa de mim?  ela riu.  A festa j est toda organizada, Mark.
	Mas no poderei ficar em vrios lugares ao mesmo tempo.
Estarei ocupado com os convidados. E se acontecer algo de errado na cozinha?
Durante a semana, a deciso de no-envolvimento que haviam adotado fora cumprida  risca. Kim tentara manter-se indiferente  presena dele e Mark estivera muito ocupado com o trabalho. Entretanto, s agora Kim se dava conta de que a atrao inicial ainda persistia.
	Ok, ficarei aqui com voc.  Ela sorveu um gole de caf para disfarar o nervosismo.  S que no preciso de um vestido novo.
	Aceite, por favor  Mark insistiu.
Kim duvidou que ele fazia aquilo por gratido. O mais provvel era que estivesse com receio de que ela o envergonhasse.
Mark preencheu um cheque e deixou o valor em branco. Entregou-o a ela.
	Compre um belo vestido. Algo que valorize seu corpo e seu rosto. Alis, voc fica muito bem de cor-de-rosa.
	Tambm devo usar um lao no cabelo?  perguntou com uma ponta de sarcasmo. Porm, arrependeu-se no mesmo instante.
Claro que a presena dela na casa seria embaraosa para Mark.
 Como ir me apresentar? Como sua sobrinha?
	Posso?
	Faa como quiser.
Kim no ligava para a deciso. Faria qualquer coisa para no prejudicar Mark. Claro que no pretendia usar o cheque que ele lhe dera. Tinha um vestido que poderia usar, embora ele estivesse um pouco fora de moda. Mas quem iria prestar ateno no que ela estaria usando? Ainda mais se se mantivesse na cozinha.
Mesmo assim foi fazer compras, pois precisava de meias novas. Comprou-as em uma das lojas que Mark recomendara. Ao escolher as meias, hesitou em ir embora. A nova coleo de primavera j havia sado e por um momento Kim permitiu-se sonhar que poderia comprar o que quisesse. J fizera isso antes ao olhar as vitrines da Macy's e Bloomingdale's, mas nunca com um cheque em branco na bolsa. De alguma maneira, esse detalhe a fez perceber que o sonho poderia muito bem se tomar realidade.
Ainda no acreditava no que Mark fizera. Ser que ele no tinha noo do que ela poderia fazer com um cheque em branco? Poderia comprar uma passagem para Nova York ou viajar para o Taiti, se quisesse! Poderia at descontar uma soma altssima da conta dele e desaparecer.
Tirou o cheque da bolsa e examinou cada detalhe da assinatura. Nunca algum confiara tanto nela. Pensando melhor, talvez Mark merecesse algo em troca. 
A casa estava toda iluminada. Por todo lado ouviam-se conversas e risos animados misturados  msica agradvel, vinda das caixas de som. O olhar discreto de Mark percorria o ambiente, enquanto conversava com Milton Barnes, dono da uma indstria de construo. A festa tinha tudo para comear bem, no fosse a presena de Barnes.
Mark no gostava do empresrio. Nunca simpatizara com ele. Antes de entrar para a Brightman, Collins e Fuller, Mark fizera a defesa de um casal que comprara uma casa construda pela companhia de Barnes, pois a casa rura bem antes do que eles esperavam. Mark ganhara alguns pontos em favor do casal, mas no tudo a que eles tinham direito. Barnes conseguira arrumar uma maneira muito esperta de sair ileso.
Pior que agora a empresa para a qual Mark trabalhava estava querendo ter Barnes como cliente. Queriam "laar" o empresrio e a incumbncia havia sido deixada para Mark. Era este o principal objetivo da festa.
Ouvia com pacincia os comentrios de Barnes acerca do novo sistema de computadores que este adquirira recentemente, quando distinguiu os cabelos ruivos de Kim em meio s pessoas. No a via desde que ela subira para se aprontar; j estava ficando com receio de que ela no fosse descer.
Ficou feliz ao v-la. Durante a ltima semana se acostumara  companhia dela. Nunca convivera com uma pessoa antes e comeava a se dar conta do vazio que ela preenchia em sua vida. Seria agradvel ter Kim - e Miriam, claro -, por perto.
As pessoas que a encobriam afastaram-se de repente, revelando a completa imagem de Kim. Mark prendeu a respirao.
	Deus meu!  sussurrou para si mesmo, boquiaberto.
Barnes virou-se, seguindo o olhar de Mark.
	Ora... Quem  essa beldade?
Kim aproximou-se, fitando-o com o mesmo olhar expressivo ao qual ele j estava acostumado. Mark sabia que por dentro ela no passava de uma criana amedrontada, mas Deus, por fora ela era uma belssima mulher!
Usava um vestido preto de mangas curtas que denunciava curvas que ele nem imaginava que ela tivesse. Meias pretas de seda e sapatos pretos de salto deixaram-na ainda mais elegante. Os cabelos ruivos contrastavam com a cor da roupa de uma maneira singular. Kim arrumara-os de uma maneira que a deixara com uma imagem sexy e selvagem ao mesmo tempo.
	Boa noite, Kimberly  Mark conseguiu dizer.
	Boa noite  ela sorriu.
Kim aplicara a maquiagem com tanta destreza que a deixara com um semblante etreo. Ainda assim, Mark notou timidez por trs daquele sorriso.
Barnes pigarreou, esperando ser apresentado.
	Milton, essa  Kimberly Wade, filha de minha irm. Kim, esse  o sr. Barnes.
Barnes levou a mo dela aos lbios.
	Pode me chamar de Milton, senhorita.
	Prazer em conhec-lo  ela respondeu.
Barnes sorriu com charme. Mark no gostou nada do brilho que viu no olhar do empresrio. Milton era uns vinte anos mais velho que Kim, mas ainda possua um porte atltico e a maioria das mulheres considerava-o atraente. Ficou ainda mais apreensivo quando viu o empresrio peg-la pelo brao e se afastar com ela.
Mark se interps no caminho.
	Desculpe, Milton, mas prometi  minha irm que Kim ligaria para ela...  olhou o relgio  ...exatamente agora  completou.
 Com licena.
Mark pegou o outro brao de Kim, muito consciente da maciez de sua pele, e levou-a  cozinha. L, ignorando os olhares curiosos, levou-a a um canto. O perfume que emanava dela deixou-o ainda mais perturbado.
	O que foi?  Kim perguntou.  Fiz algo eirado?
Mark olhou para os lbios rubros, convidativos.
	No  respondeu.  Eu... Nada. S queria lhe dizer que est muito bonita.
	Obrigada  Kim agradeceu, tmida.
	E para avis-la que tenha cuidado. Barnes  um verdadeiro tubaro.
To logo os dois voltaram para a sala, um par de braos alvos enlaou o pescoo de Mark.
	Mark, meu amor!  Suzanne beijou-o na boca.  Voc  um gnio! A casa est uma maravilha!
	Oi, Suzanne.
Ele deu um passo atrs. Seus olhos fixaram-se em Kim quando la comeou a andar entre os convidados. No demorou muito e ela segurava uma taa de champanhe enquanto conversava com um jovem loiro. Quem era ele?, Mark pensou, irritado. Ah, era o filho de Bill Fuller. Cursava o primeiro ano de direito. Jovem, atraente e com um futuro brilhante pela frente.
	Aquela  Kim?  Suzanne arregalou os olhos.  Meu Deus!
	Aceita um drinque?
	No, obrigada. Olhe s para aquele vestido!
Com um sorriso nem um pouco gentil, Suzanne aproximou-se de Kim. Mark seguiu-a, num gesto protetor em relao a Kim, mas, para seu alvio, Suzanne limitou-se a cumpriment-la.
O que estava acontecendo, afinal? Suzanne no tinha motivos para sentir cime. Kim era sua sobrinha. Se bem que postia. De qualquer maneira, ele precisava se recompor e tirar Kim dos pensamentos. Tinha mais quarenta convidados para dar ateno.
	O que essa sua sobrinha, Kimberly, est fazendo por aqui?
 Milton voltou a abordar Mark algum tempo depois.  Ela est de frias?
Mark sentiu-se tentado a dizer que sim e que Kim partiria no dia seguinte.
	No  respondeu, por fim.  Ela e minha irm iro se mudar da costa leste para c. Minha irm ainda est l, tentando vender a casa.
	Sua sobrinha  muito bonita.
	Mas muito jovem tambm  Mark respondeu de pronto.

	Melhor ainda  Barnes esboou um sorriso maroto.
Mark enrijeceu o maxilar.
	Estou falando srio.

	 mesmo?  O olhar de Bames tornou-se desafiador.  No est com ideia de guard-la para si, est?
	No diga besteiras; ela  minha sobrinha. Sinto-me responsvel por ela, s isso.  Mark estava irritado, mas sentiu que aquele no era o melhor momento para um confronto.  Por isso... deixe-a em paz, est bem?  avisou.
Dizendo isso, foi dar ateno a um grupo de convidados reunido mais adiante.
A festa transcorria bem. A comida estava tima, a casa acolhedora e um grupo conseguira at transformar a varanda em uma pista improvisada de dana.
Kim tambm fazia muito sucesso. Principalmente com Milton Barnes. Apesar do aviso de Mark, o homem a cercara a um canto do sof por mais de uma hora, sem dvida pensando que a conquistara com sua conversa enfadonha. Durante todo o tempo, Mark proibiu-se de interferir. Estavam apenas conversando. Mas quando Kim ficou de p, com a desculpa de se retirar, lanou um olhar aflito para Mark.
	Johnson, tenho uma proposta a lhe fazer  disse Bames aproximando-se.
Mark sentiu vontade de agarr-lo pelo colarinho, mas conseguiu se controlar a tempo. Afinal de contas, Bames era um de seus convidados e, como tal, tinha que ser bem tratado.
	O que deseja, Bames?
	D um jeito de ela sair comigo.
	Quem? Kim?
	Sim. No consegui ter grandes progressos com ela. Talvez um pouquinho de presso familiar ajudasse  disse e tocou o brao de Mark, rindo.
Mark lanou-lhe um olhar desconfiado.
	Um acordo? E o que eu ganho em troca?
O sorriso do outro se ampliou.
	E um rapaz esperto, Johnson. Voc escolhe a recompensa.
Dizendo isso, Bames afastou-se. Mark apertou o copo de usque com tanta fora que teve receio de que ele se partisse em suas mos.
Quando voltou a localizar Kim, ficou aliviado ao ver o filho de Fuller convid-la para danar. Tratava-se de um jovem talentoso e educado, do tipo que um pai gostaria para sua filha. Mark garantiu para si mesmo que seu alvio devia-se apenas a isso, e no ao fato de que o rapaz estava na cidade apenas de frias e em breve voltaria para a faculdade.
Satisfeito por ver que Kim estava em segurana, Mark permitiu que Suzanne tomasse um pouco de seu tempo. Por cima do ombro dela, viu Stu Zambroski, seu maior rival dentro da empresa, conversando com Milton Bames. Mark apertou os lbios. A inveja de Stu e a vontade de querer pass-lo para trs no tinha mesmo limites.
Quando conseguiu se livrar de Suzanne, procurou Bames, mas no o encontrou. Dirigiu-se  varanda. Chegando l, encontrou Bames puxando Kim para seus braos enquanto forava o filho de Fuller a se afastar.
	Cuidado, meu amor  Suzanne avisou-o.  No termine a festa antes do tempo.
Mark tentou sorrir.
	Ora, voc conhece a reputao de Bames. E Kim est sob minha responsabilidade.
	Ela j  bem crescidinha, querido. Sabe cuidar de si mesma.
Mark terminou o usque de um s gole. Kim era bem mais crescida do que ele imaginara. E era justamente isso que o preocupava. Todavia, ela tinha todo direito de ficar com quem quisesse e ele no podia se intrometer.
Enfiou as mos nos bolsos e ficou observando os dois danarem. Kim, to jovem e vulnervel, sendo cortejada por um homem de cabelos grisalhos que tinha idade para ser pai dela!
Mark continuou olhando, enquanto lembrava da proposta que Bames fizera. Ficara implcito que o empresrio aceitaria ser cliente da Brightman, Collins e Fuller, desde que Mark seguisse seus termos.
Mark tentou se manter indiferente. Olhou para Suzanne. Depois para outras mulheres com as quais j sara e para outras com as quais poderia sair no futuro, se quisesse. Entretanto, a sensao estranha que o pressionava de dentro para fora finalmente eclodiu, e antes que se desse conta do que fazia, j atravessava a sala em direo  varanda.
O toque no ombro de Bames foi mais do que um aviso.
	Desculpe, mas creio que minha sobrinha no est disposta a danar com voc.
Barnes manteve o brao em torno da cintura de Kim.
	Est comeando a me deixa? irritado, Johnson.
	Vou fazer mais que isso se no a deixar em paz.
Mark viu alvio nos olhos de Kim. Ela dirigiu-se a Milton num tom gentil:
	Se no se importa, gostaria de conhecer mais pessoas da festa, sr. Barnes.
	Claro  ele respondeu, deixando-a ir. Porm, assim que ela se foi, ele voltou-se para Mark:  Parece que no entendeu direito os termos de nosso acordo, Johnson.
Mark sabia muito bem o que estava em jogo. Um negcio de dez milhes de dlares, pelo qual ele estivera esperando durante os ltimos dez anos.
Todavia, ele parecia prestes a escapar de suas mos.

CAPITULO V

Kim verificava o que sobrara de doces e salgados, quando Mark entrou na cozinha. Ela levantou a vista.
	Oi. Todos j foram embora?
Ele assentiu.
	Foi aqui que resolveu se esconder?  Ele encostou-se contra a pia.  Sinto pelo aconteceu com Barnes.
	Obrigada pela ajuda  ela respondeu, sincera.
Nunca algum a defendera daquela maneira. Ela estava acostumada a ter que se virar sozinha e poderia ter feito o mesmo com relao a Barnes. Ainda assim, o gesto de Mark tocou-a profundamente. Foram para a sala.
	Oh, aqui est algo que no pude lhe entregar antes  ela entregou o cheque a ele.
Mark pegou-o, franzindo o cenho.
	No foi  butique?
	Fui. Mas gastei do meu prprio dinheiro.
	Kim, esse vestido deve ter custado uma fortuna!
	Nem tanto. Comprei-o do estoque de inverno, em uma liquidao.
Ainda assim, o dinheiro com o qual ela viajara estava quase no fim. Precisava comear a trabalhar logo.
O olhar de Mark percorreu-a da cabea aos ps.
	De qualquer maneira, ficou belssimo em voc.
Kim corou.
	E ento? Como foi?  indagou, sentando-se em uma poltrona prxima  lareira.
	A festa?  Mark sentou-se em outra poltrona.
	No. Como foi com voc.
	O que est querendo dizer?
	Bem, sei que disse que a festa no tinha nada a ver com sua promoo, mas no sou boba, Mark. Os convidados ficaram de olho em voc a noite inteira. E ento? Provou a eles que  digno do cargo?
Ele riu.
	Receio que no.
Kim empertigou-se.
	Por qu?
Mark fitou-a, transmitindo seu conflito interior.
	No ficaram satisfeitos com a maneira como tratei Milton Barnes  respondeu.  O problema  que nossa empresa quer t-lo como cliente, j que o nome Barnes  sinnimo de muito dinheiro e prestgio. S que depois dessa festa, j no sei se teremos sucesso.
	Oh, Mark, sinto muito.
	Nunca fui com a cara dele mesmo  ele deu de ombros.
 Tir-lo do negcio foi at um alvio.
	Mas voc no fez isso!
Mark colocou uma almofada sob a cabea.
	Receio que sim, anjo.
Ele parecia gostar de cham-la daquela maneira.
	Quem era aquele outro rapaz que conversava com Bames de vez em quando?
	Zambroski. Ele trabalha na mesma empresa que eu. Conversou com ele durante a festa?
	No. Mas no precisei de muita astcia para perceber que ele no  seu f nmero um. Tenho um sexto sentido com relao s pessoas, sabe.
Os olhos azuis de Mark expressaram um brilho de interesse.
	E o que mais esse seu sexto sentido lhe disse?
	Bem, que boa parte das mulheres presentes j saram com voc e outras tantas esperam sair. Para ser sincera, cheguei a pensar o que deu na cabea de Mriam para me deixar aos cuidados de um verdadeiro Casanova. O comentrio fez Mark rir alto e ela completou:  E no tenho razo?
Ainda rindo, ele fez um gesto de mais ou menos com a mo.
	Sa com algumas  confessou.
	Claro. S estava procurando a mulher certa e no conseguia encontr-la, certo?
	Mais ou menos.
	E quanto a Suzanne?
	O que tem ela?
	E ela a escolhida?
	E o que a faz pensar que quero me casar?
Kim deu de ombros.
	Foi apenas uma impresso. Essa casa  grande e tem uma atmosfera muito familiar. Aposto que por trs dessa fachada de solteiro convicto, se esconde um homem que sonha em se casar e ter muitos filhos.
	Est maluca?
Mark pegou uma almofada e jogou na cabea dela.
Kim riu da brincadeira. Colocou a almofada sobre os joelhos.
	Peguei seu ponto fraco, no foi?  provocou-o.
	Vamos mudar de assunto, pelo amor de Deus. O que achou de Curly, Larry e Moe?
	Quem?
	Os trs patetas. Meus chefes  ele explicou.
	Oh  Kim riu.  Muito simpticos, apesar de extrema mente austeros. Eu no soube ao certo como me comportar quando voc me apresentou a eles.
	Comportou-se muito bem  Mark assegurou-a.
Kim fez uma leve careta.
	Tive a impresso que no gostaram de mim. Principalmente o pai de Suzanne. Ouvi ele e o sr. Collins fazendo comentrios a respeito de minha estadia aqui no ser conveniente. Acho que devia ter seguido seu conselho e comprado um inocente vestido cor-de-rosa.
	No ligue para isso.  Observou-a com mais ateno.  Sabe uma coisa?  muito bom estar aqui sentando, tendo algum para conversar a essa hora da noite.
" mesmo", pensou Kim. Era quase como se fossem casados.
	Est com fome?  Mark perguntou.
	Faminta, para ser sincera  ela respondeu.  Fiquei nervosa demais para conseguir comer durante a festa. Sobrou muita coisa na cozinha.
	Otimo  ele ficou de p.
Pode ficar a que vou pegar alguns petiscos para ns Kim ofereceu-se.
Quando ela voltou da cozinha, alguns minutos depois, encontrou Mark adormecido no sof. Sorriu, observando sua respirao compassada.	
Anjo. Ela tentou se comportar da maneira angelical como ele a imaginava. Porm, ao olhar para aquele peito largo, forte e passear a vista devagar por aquele corpo msculo, no se sentiu nem um pouco angelical.
Kim comeou a trabalhar no restaurante Lanterna Azul na semana seguinte. Embora fosse uma segunda-feira  noite, as gorjetas foramsmuito generosas. Seus instintos disseram que ela descobrira uma verdadeira mina de ouro.
Quando tirou o uniforme e saiu do restaurante j eram duas da manh. O uniforme combinava com a decorao do restaurante, toda baseada na atmosfera europeia. Mangas bufantes, corpete justo e uma saia que mal cobria seu traseiro. Esse era o maior problema.
Ainda assim, no tinha do que reclamar. O salrio era bom e somado ao do outro emprego que conseguira de dia, conseguiria juntar um bom dinheiro antes de Miriam chegar.
Kim foi tomada pela mesma sensao de tenso que sempre sentia ao pensar em Miriam. E em Theodore. Se Miriam se casasse com ele as coisas se tornariam ainda piores.
No decorrer da semana, ela e Mark quase no se viram. Kim chegava tarde, dormia durante boa parte da manh e quando ele voltava do escritrio, ela j havia sado novamente. Porm, durante as poucas vezes em que tinham se visto, Kim notou que ele estava cansado e agitado.
	Voc est bem?  ela perguntou na quinta-feira.
Era o nico dia em que ela no trabalhava no escritrio. Mark chegara do escritrio mais cedo, para ter oportunidade de jantar
com ela.
	Sim, estou bem.  Ele forou um sorriso, mas ficou evidente que sua aparncia era de cansao.  Como est indo no trabalho?
	Muito bem.
Preferiu no mencionar o fato de que seu sexto sentido no estava captando boas vibraes no Lanterna Azul.
	Parece cansada  Mark comentou.  V com calma, ok?
	Pode deixar.
	Milton Bames tem perguntado de voc  comentou ele.
Kim abaixou o garfo.
	No contou nada a ele, contou?

	No.  Mark fitou-a nos olhos.  O homem vale cerca de dez milhes de dlares, sabia?
	Sorte dele.  Kim comeu outra poro de salada de batata.
O sorriso de Mark deixou-a sem flego.  Lamento que sua empresa tenha perdido o negcio que faria com ele.
	No perdemos o acordo. Alis, ele o assinou ontem. Zambroski ser o advogado dele.
Mark levantou e colocou o prato na pia.         
	E isso afetar sua promoo?  Kim indagou, hesitante.
	No, claro que no. O fato  que se ela ocorrer, vou ter que trabalhar para um bando de idiotas.  Ele a encarou. Mas no se preocupe com isso.
Kim achou melhor mudar de assunto.
	Quando viro buscar os mveis alugados?
	No viro buscar. Estendi o prazo do aluguel at poder comprar meus prprios mveis.  bom ver a casa completa, sem comodos vazios.
	Oh, timo.  Kim tambm colocou o prato vazio na pia e comeou a retirar a mesa.  Ligou para Miriam essa semana?
	No. E voc?
	Tambm no  ela respondeu.  Como ser que ela est indo com a venda da casa?
	Talvez eu ligue para ela hoje  noite.
	timo  disse Kim.  Poderia dizer a ela que tenho andado ocupada demais para procurar o apartamento, mas que farei isso em breve?
	Claro.
Mark ficou em silncio, olhando atravs da janela da cozinha. Kim esperava que ele estivesse certo e ela no houvesse estragado a promoo dele. Todavia, algo lhe dizia que fora justamente isso que acontecera. Afinal, fora por causa dela que Mark e Barnes haviam se desentendido.
Mais uma razo para ela se voltar para a prpria vida. Quanto mais cedo deixasse a de Mark, menos prejuzo daria a ele.
	Agora preciso ir  anunciou, vestindo o casaco.
	J?  Mark virou-se rpido.
	Hum-hum. Nos veremos... qualquer hora dessas.
Mark ficou mais algum tempo perambulando pela cozinha, antes de ir ao escritrio ligar para Miriam. Discou o mesmo nmero de sempre e, para sua surpresa, uma voz diferente atendeu do outro lado. S ento notou que tratava-se de uma gravao que comunicava a desconexo do nmero que ele discara.
Mark desligou, confuso. Desconectado? Por que Miriam mandaria desligar o telefone sem comunicar o novo nmero a ele e Kim? Como fariam para entrar em contato, se houvesse necessidade? Ser que ela vendera a casa e j estava a caminho do Colorado?
Mark enfiou as mos nos bolsos e andou com passos lentos pelo aposento. Onde diabos estaria Miriam? Riu consigo mesmo. Fizera-se essa pergunta praticamente durante toda sua vida.
Parou quando viu um suter de Kim sobre uma cadeira. Um tecido azul-escuro com um leve perfume floral, como o dos cabelos dela. No gostava de ver aquela massa de cachos avermelhados presos quando ela saa para trabalhar. Cabelos como os dela haviam sido feitos para viverem soltos, esvoaando ao vento...
Ainda segurando o suter, lembrou da maciez da pele de Kim. Lutara para se manter distante e no pensar nela nos ltimos dias, mas a verdade era que simplesmente no conseguira.
Tirou o fone do gancho mais uma vez e discou para um nmero de informaes, em Nova York. Logo ficou sabendo que no havia nenhuma Miriam Wade ou Johnson registrada como possuidora de uma linha de telefone.
Aps desligar, Mark pensou mais um pouco e voltou a discar outro nmero.
	Bob? Como vai? Aqui  Mark Jonhson.
	Oh, como vai voc, meu amigo?  a voz do outro lado soou surpresa.
	Estou bem, Bob. Espero no estar lhe atrapalhando, mas  que estou com um probleminha.
Mark e Bob eram amigos desde os tempos de faculdade e haviam continuado a amizade mesmo depois do trmino do curso. Bob havia se tornado detetive particular e abrira uma firma em Nova York.
Quando Mark desligou, sentiu-se bem mais aliviado. Se existia algum que podia descobrir o paradeiro de sua irm misteriosamente desaparecida, esse algum era Bob. No que Mark acreditasse que ela havia sumido. Era provvel que de uma hora para outra Miriam ligasse com uma explicao ou mesmo aparecesse  sua porta. Pelo menos, assim ele esperava.
Sentou-se  mesa. Abriu um livro e aps ler poucas pginas acabou adormecendo.
Acordou com um sobressalto, quando os culos caram em seu peito. O telefone tocou, aparentemente pela segunda vez. Ajeitou-se na cadeira e o atendeu.
	Al?  disse com voz sonolenta.
	Mark?
Ele ficou alerta no mesmo instante.
	Kim? O que aconteceu? O carro quebrou?
	Hmm, no. O carro est bom.
	Ainda est no trabalho?
	No.
A voz de Kim tomava-se cada vez mais baixa. Mark ouviu movimentao ao fundo: vozes, passos, telefones...
	Desculpe incomod-lo, mas no sabia a quem recorrer. Deixaram que eu ligasse para voc e...
	Onde voc est?  Mark perguntou no mesmo instante.

	Em uma delegacia.
Ele apoiou-se na mesa.
	Essa no! Foi presa?
	Mais ou menos.
Mark estava mais confuso que nunca.
	Como "mais ou menos"?
	Bem, o restaurante foi flagrado e fomos todos presos: garonetes, o barman, todo mundo.
	Qual  o nome desse restaurante, Kimberly?
	Est zangado, no est? Chamou-me de Kimberly.
	O nome. Diga-o.
	Lanterna Azul.
	Lanterna Azul...  Mark repetiu, vasculhando a mente  procura do nome.  Oh, maravilhoso  ironizou quando se deu conta de onde Kim havia se metido.
	Acho que  um local de contrabando, mas eu juro que no sabia, Mark!
	Tudo bem. Fique calma. Estarei a dentro de alguns minutos.
Qual  o endereo?
Ele desligou o telefone logo em seguida, nervoso demais para se despedir.
	Kim Wade?  disse a policial feminina  porta da cela.
 Est livre.
Kim ficou de p no mesmo instante.
	Boa sorte, querida  desejou-lhe uma outra garonete que tambm esperava ser libertada.  Espero que encontre um trabalho de verdade em breve.
	O qu? Oh, sim. Desejo o mesmo para voc.
A ltima preocupao de Kim no momento era arrumar outro emprego. Pior seria encarar Mark. Sentiu uma onda de humilhao s de pensar nisso. Como pudera ter sido to idiota a ponto de aceitar trabalhar em um lugar onde havia contrabando?
Pior ainda que a humilhao, seria aparecer diante dele usando aquele uniforme. Enquanto andava pelo corredor puxou a saia para baixo, mas o gesto s serviu para abaixar o corpete e expor mais uma parte de seus seios. Como Mark a respeitaria depois de v-la daquela maneira?
Respeito? Isso era piada! Teria sorte se Mark j no tivesse colocado suas malas do lado de fora da casa. Contando a confuso com Milton Bames, essa era a segunda vez que ela o colocava em apuros em apenas uma semana. Aquele antigo pensamento de que ela nunca deveria ter sado de Nova York voltou a sua mente.
Quando entrou na outra sala, Mark conversava com o delegado. Kim teve a impresso de que os dois j se conheciam. "Maravilhoso!", pensou, irnica. Estava embaraando-o na frente de pessoas conhecidas.
O delegado foi o primeiro a olhar para ela. Mark virou-se devagar, como que preparando-se para o que iria ver. Kim teve vontade de sumir dali.
	Pronta, Kim?  Mark perguntou com calma.
Ela fez que sim. Sua garganta estava embargada demais para emitir algum som.
	Onde est seu casaco?  ele perguntou.
Ela tentou dizer que ele ficara no restaurante, mas, sem voz, apenas deu de ombros. 
Mark tirou o prprio casaco e colocou-o sobre os ombros dela.
	Obrigada  ela conseguiu dizer.
	Venha. Vamos sair daqui  disse ele, pegando-a pelo brao e conduzindo-a por outro corredor.
	Mas assim? No tenho que assinar papel algum?
	Claro que no. Voc no teve nada a ver com a apreenso.
	Hei, Dr. Johnson, o que est fazendo aqui?  disse algum atrs deles.
Mal os dois se viraram e oflash de uma mquina fotogrfica os atingiu em cheio. Kim sentiu a mo de Mark apertar seu brao com firmeza.
	Deixe-me em paz, Lenox  disse ele.
Ficou claro que Lenox era um reprter  procura de um furo jornalstico. Ele fez sinal para o fotgrafo e este bateu mais uma foto. Em seguida, pegou um caderno de anotaes e comeou a interrogar Mark:
	O que aconteceu, Dr. Johnson? Como ficou sabendo do flagrante no Lanterna Azul?
Ele olhava de Mark para Kim, com uma expresso de curiosidade que a deixou perturbada. Mark o encarou, srio.
	No h nada que lhe interesse aqui, Lenox  disse e respirou fundo, tentando manter a calma.
	Quem  essa jovem, doutor? Filha de algum que conhecemos?
Lenox continuava jogando insinuaes, por certo pensando que Kim fosse filha de algum poltico influente. A insistncia do reprter a fez estremecer no apenas de receio, mas tambm de raiva. Mark no precisava estar passando por isso. Sabia bem que ele havia trabalhado duro a semana inteira, sempre dormindo tarde e acordando cedo. E, como se no bastasse, agora aquele reprter intrometido resolvera aborrec-lo.
	Pelo amor de Deus!  ela bradou, levando as mos  cintura.  No sou ningum importante. Sou apenas Kim Wade, sobrinha postia dele. S isso.
Kim no soube dizer se o reprter ficara desapontado ou ainda mais intrigado. S o que teve conscincia foi da tenso que tomou conta de Mark.
	Por que foi escolher logo um lugar como o Lanterna Azul para trabalhar, srta. Wade? Seu tio no lhe deu nenhum aviso?
	Foi um prazer rev-lo, Lenox  Mark disse e puxou Kim em direo  sada.
	Sinto muito. Sinto mesmo.
Kim no soube mais o que dizer, quando conseguiram se livrar do reprter.
Mark no respondeu. No era preciso ser um gnio para notar que ele estava furioso. Percorreram o trajeto de volta em silncio. S que para Kim o caminho pareceu mais longo que o normal.
	Onde estamos indo?  indagou a certa altura.
	Estou apenas circulando pelas ruas  foi a resposta de Mark.  Dirigir me ajuda a descarregar a raiva.
	Para mim funciona quando como chocolate  comentou ela. Teve a impresso de ver um ar de riso insinuar-se nos lbios dele.  Seu carro ficou no estacionamento do restaurante avisou.
	No se preocupe com ele. A polcia o devolver.
	Minhas roupas tambm ficaram l.
	Esquea delas. Compraremos outras.
Kim virou o rosto, embaraada demais pelo trabalho que estava dando a ele.
Alcanaram o fim de uma estrada, de onde se podia ter uma bela viso da cidade. Mark desligou o motor do carro e permaneceu quieto, olhando a paisagem. Kim cruzou os braos, esperando um sermo sobre o trabalho que ela arrumara, seu uniforme e o risco que ela correra de arruinar a reputao dele. Enquanto esperava j ia preparando uma defesa.
	Como est se sentindo?  Mark inquiriu num tom inesperadamente gentil.
	Bem. Eu acho.
Ele esticou o brao e acariciou o ombro dela. Aquele toque foi mais confortador do que tudo que Kim poderia esperar.
	Deve ter ficado assustada.
Por que ele a estava tratando daquela maneira gentil?, pensou ela. Seria muito mais fcil lidar com a situao se Mark estivesse com raiva. Afinal, era com pessoas assim que ela estava acostumada a lidar. Algo lhe dizia que pisava em territrio perigoso e que poderia acabar se machucando.
	Um pouco  admitiu.  Nunca fui presa antes.
	Bem, j passou. Relaxe, meu anjo.
Foi o suficiente para acalm-la por completo. Todavia, a dor da humilhao pela qual passara ainda persistia.
	Oh, Mark, foi... horrvel.
	Eu sei. Venha c.
Ele passou o brao sobre os ombros dela e puxou-a para si. Kim encostou o rosto no peito acolhedor e deixou-se ficar assim por um longo tempo, enquanto Mark lhe acariciava os cabelos.
Ouvir as batidas compassadas do corao de Mark, fez Kim experimentar uma sensao de segurana e proteo que nunca sentira antes. Se pudesse, permaneceria ali para sempre.
Depois de algum tempo, ela deu-se conta de que Mark deveria estar com frio, j que ficara sem o casaco.
	Voc deve estar com frio.
	S nesse brao  ele sorriu, erguendo o brao esquerdo.
  a nica parte que ficou afastada de voc.
Mark girou a chave na ignio e Kim sentiu uma onda de desapontamento.
	J temos que ir?  perguntou.
	No. Estou apenas ligando o aquecedor.
	Oh, timo.  Kim queria ficar mais tempo ali, sozinha com Mark.  A paisagem  muito bonita daqui  disse rpido, justificando sua vontade de ficar.  Todas essas luzes contras 
tando com o cu escuro criam um efeito belssimo.  Olhando as montanhas ao longe, acrescentou:  A imensido daquelas montanhas no faz voc se sentir pequeno?
	Humilde. Essa  a palavra que eu escolheria, Kim. Nunca deve permitir que algo a faa se sentir pequena.
Kim cruzou as mos sobre o colo. Toda sua vida, as pessoas e circunstncias sempre a inspiraram a se sentir pequena.
	Mark? Por que no est me levando para o aeroporto nesse momento?
Ele virou-se no assento, encostando-se contra a porta, com o brilho prateado da lua iluminando alguns traos de seu semblante.
	Sobre o que est falando?
	Bem, por que est sendo to compreensivo com essa histria do Lanterna Azul?
Mark ficou em silncio por um longo tempo. Embora olhasse para Kim, era como se no a estivesse vendo.
	Tambm j trabalhei em lugares no muito recomendveis, Kim  finalmente confessou.  Meu pai morreu quando eu tinha nove anos e a vida no foi nada fcil para mim.
Kim abriu a boca, mas no disse nada. Mark era um renomado advogado. Morava em uma belssima casa e tinha amigos importantes. Dirigia um BMW. Kim imaginara que a vida dele sempre havia sido daquela maneira.
	De onde voc , Mark?  perguntou, surpresa por no saber aquilo.
	De uma cidadezinha naquela direo  apontou algum ponto na escurido. Kim pestanejou.
	Existe uma cidade ali?
	Hum-hum. Uns trinta quilmetros adiante h uma fazenda.
 Ele riu, pesaroso.  Pelo menos costumava ser uma fazenda, antes da morte de meu pai.
	Com vacas, galinhas, gansos...?
	A maior parte dela era utilizada para o cultivo de alfafa.
As vezes, Miriam e eu costumvamos conversar at tarde da noite, planejando o que faramos quando crescssemos. E claro que o primeiro de nossos sonhos era sair da fazenda.  Ele sorriu.  Lembro que Miriam sonhava em ir para Hollywood e se tornar atriz. Ou ento viajar para a Espanha e encontrar um marido rico.
	E quais eram seus sonhos, Mark?  Kim murmurou.
	Os meus? Bem, geralmente diziam respeito a viajar em um foguete para Marte. Ou ento montar cavalos em rodeios. O mais engraado naquelas conversas era o modo como Miriam se apegava a detalhes. Sabe que ela podia passar uns dez minutos s descrevendo um coquetel de camaro? Ela dizia que era isso o que mais iria comer quando ficssemos ricos. Eu nem sabia o que era, mas morria de vontade de provar s de ouvi-la falar.
	Quando ela partiu?

	Depois que fiz dez anos. Ela estava com dezessete e pronta para lutar por seus sonhos. Poucos meses depois, ficamos sabendo que ela havia se casado e estava morando em Denver.
	E o que voc fez?
	Ajudei minha me o quanto pude, mas tambm tinha que me preocupar com os estudos. Quando a vida ficou difcil por aqui, resolvemos nos mudar para Denver tambm, mas quando chegamos l, Miriam j havia partido para outro lugar.
Kim no entendeu muito bem. Eles haviam ido para Denver na esperana de encontrar Miriam? Ser que ela no mantivera contado? Porm, preferiu no falar. Sentiu que Mark no tinha conscincia do quanto a irm se tornara uma pessoa fria e ambiciosa.
	Sua me ainda mora em Denver?  questionou.
Mark fez que no.
	Ela morreu trs meses depois de nos mudarmos para l.
	Sinto muito, Mark.  S agora ela notava o quanto Mark ficara sozinho durante anos.  Como se tomou advogado?
Ele coou o queixo, pensativo.
	Perambulei em Denver por um ano. Foi tempo suficiente para me dar conta de que o lugar no possua as portas mgicas que Miriam e eu sonhvamos que existissem por l. Percebi que a nica maneira de sobreviver dignamente seria estudando e trabalhando duro para conseguir ser algum na vida.
Kim mordeu o lbio, imaginando o que "perambular por Denver" significava. Aos dezoito anos, sem parentes ou amigos, Mark devia ter sofrido um bocado.
	Como conseguiu bancar os estudos?
	Da mesma maneira como outras pessoas que no tm dinheiro fazem: frequentando escolas pblicas, ganhando bolsas de estudo, trabalhando...
Kim exalou um longo suspiro.
	Tem razo para se orgulhar se si mesmo depois de tudo que conseguiu  afirmou.
	Sim.  Ele fitava a paisagem com olhar vago. Voltou-se para ela:  Bem, foi uma longa resposta para uma pergunta simples, no foi?
	Eu... Qual foi mesmo a pergunta?
	Por que eu no estava zangado por voc ter sido presa.
Primeiro, no foi culpa sua e segundo, voc tem trabalhado tanto ultimamente que qualquer um pode ver que h um objetivo muito importante por trs disso.
	...  Kim queria contar a ele o motivo pelo qual estava trabalhando tanto, mas sabia que ele no entenderia.  E tentou mais uma vez  ... que quero ir para a escola.
Mark olhou-a:
-  mesmo? Muito bom, Kim. O que pretende estudar? Ela engoliu seco. Nunca encontrava uma maneira de dizer aquilo sem fazer as pessoas rirem.
	Eu diria que  um curso mais prtico do que terico.
	Ah  Mark assentiu, esperando que ela explicasse mais.
	No sei se est ciente de que h uma demanda cada vez maior no que diz respeito a cuidar de crianas.
	Oh, eu sei. Com tantas mes trabalhando fora, h creches...
	No  exatamente a esse tipo de cuidado que estou me referindo...  No havia mesmo outra maneira de explicar e Kim resolveu falar de uma vez:  Quer entrar para uma escola de babs.
Esperou pela risada ou a mesma pergunta de sempre: "'O que diabos se aprende em uma escola de babs?", mas nada ocorreu.
	Kim, esta  uma das ideias mais novas que j tomei conhecimento nos ltimos tempos. Agora faz sentido, o livro de cuidados...  ele interrompeu-se de repente, dando-se conta de que quase falara demais.   mesmo necessrio frequentar uma escola para se tomar uma bab?
	Para se tornar uma bab diplomada, sim. Babs diplomadas so difceis de se encontrar. As agncias de emprego vivem querendo contrat-las, porque elas so treinadas para cuidar de cada detalhe do desenvolvimento da criana, at mesmo das roupas.
Mas no fazem servios domsticos.
Mark riu.
	E quanto ao salrio?
	E muito bom. Isto , quando se  diplomada. O diploma d direito a certas regalias e benefcios, como convnio mdico, por exemplo. O salrio tambm depende do lugar. As babs de Nova York so as mais bem pagas.
	E onde fica essa escola? Em Nova York?  Mark questionou.
	Sim, h uma l. Mas existem muitas outras.
Ele hesitou.
	H alguma no Colorado?
Kim fez que sim.
	J verifiquei uma em Fort Morgan.
	Est mesmo empenhada em seguir essa carreira, no ?
	Claro!

	Hmm. Estou surpreso por Miriam no haver me informado desse detalhe. Resolveu h pouco tempo e no teve tempo de conversar com ela,  isso?
	Oh, ela sabe.
	Sabe? Ainda estou confuso, Kim. Est juntando dinheiro para pagar seus estudos?
	Sim.
S depois de haver respondido, Kim se deu conta de que falara demais.
	Mas por qu?  Mark perguntou.
Kim sentiu-se num beco sem sada. No queria revelar o que Miriam fizera. Isso faria Mark ver um lado da irm que seria melhor ser mantido no anonimato.
	Eu...  comeou, evasiva  ...no precisarei mais fazer isso quando Miriam estiver aqui.  Olhou para o relgio. Mark, j  muito tarde.
Ele respirou fundo.
	Sim  concordou, ajeitando-se no banco do carro.
Kim ficou aliviada quando ele colocou o carro em movimento. Queria lembrar apenas do lado bom do momento em que ficara ali com Mark. No valia a pena estragar um instante to bonito falando de Miriam.

CAPITULO VI

Mark disfarou um bocejo aps parar o carro no estacionamento da Bhightman, Collins e Ful-ler. No dormira quase nada e ainda estava com a mente um tanto agitada.
No gostava de pensar muito em Kim, mas ultimamente isso estava sendo algo inevitvel. No trabalho, de vez em quando pegava-se distrado. No que algum estivesse notando. Seu desempenho continuava impecvel, mas s ele sabia o esforo que estava fazendo para tanto. Kim tornara-se uma imagem constante em sua mente; algo que o acompanhava dia e noite.
Balanou a cabea, tentando libertar-se da imagem daquele rosto. Abriu a porta do carro, determinado a se concentrar apenas no trabalho.
Encontrou sua secretria atarefada em datilografar algumas cartas.
	Bom dia, Willie.
Ela parou apenas o suficiente para dizer:
	Querem v-lo. No escritrio de Brightman.
Mark sentiu uma onda de adrenalina. Ser que os outros j haviam tomado uma deciso quanto  sua promoo?
	Quando?  perguntou  secretria.
Agora mesmo  respondeu ela, sem levantar a vista da mquina.
Mark colocou a maleta em sua sala e foi direto ao escritrio de Brightman.
	Querem falar comigo?
Os trs donos da empresa levantaram a vista para ele.  Sente-se, Mark  mandou Bill Fuller.
Mark permameceu de p
	Qual  o  assunto?  indagou.
Com um suspiro impaciente, Ed Brightman dobrou o jornal que tinha diante de si. No mesmo instante, Mark percebeu o que acontecera.
Tive uma  noite difcil tentou se justificar embora sua maior vontade fosse estrangular Lenox. 
	Deve ter sido mesmo - asseverou Geoff Collins, irnico. 
Mark  pegou  o jornal e leu a legenda da foto: O famoso advogado Mark Johnson e Kim Wade, sua sobrinha postia, saem da delegacia aps o flagrante ocorrido no Lanterna Azul. A srta. Wade era uma das garonetes do restaurante.
A matria dava mais detalhes do episdio, mas para Mark aquilo ja foi o suficiente. O silencio na sala estava ficando cada vez mais opressor. 
	Muito bem  Mark foi o primeiro a faIar  digam de uma vez. Sei que no esto nem um pouco satisfeitos com o que aconteceu.	
	Mas  claro que no estamos!  o rosto de Brightman tornou-se vermelho.  Mark, voc sabe que no podemos tolerar esse tipo de escndalo.
Mark suspeitou que seu proprio rosto tambm estivesse vermelho.
Que escndalo? A matria explica que o crime era afianvel e que a maioiria dos empregados era inocente.
	Sim, mas a maior parte das pessoas no se preocupa em ler uma notctia inteira de jornal.  Lem um ou dois paragrafos, olham as fotos e tiram as concluses que quiserem! Deus, o que aconteceu ao seu bom-senso, Mark? H um ms voc preferiria morrer do que ser visto com uma mulher vestida assim!
Mark cerrou os dentes. Sua vontade era pegar o colarinho impecvel de Brightman e cham-lo de imbecil. Contou at dez e por fim acabou concordando com eles de que a imagem que ele e Kim haviam passado no fora muito boa.
	O nome da sua firma nem foi mencionado- argumentou.
	Sabemos disso- replicou Fuller.  mas foi graas a uma troca de favores.
	Quanto tempo ests moa ficara com voc?  Brightman inquiriu.
O olhar de Mark tornou-se desafiador.
	No sei.
	Bem, d um jeito para que ela no se meta mais em encrencas, ouviu?
Mark no queria se sentir irritado. Sabia que eles tinham razo. Porm, a verdade era que estava furioso.
	Ok.  s isso que temos a dizer sobre esse assunto  Ed Brightman anunciou.  Em pouco tempo voc ser um dos empregados mais valiosos da empresa, por isso no queremos que se meta em confuses.
Mark engoliu o ressentimento e dirigiu-se  porta.
	Oh, s mais uma coisa, Johnson. A documentao da nova empresa de Milton Bames j foi entregue a ele?
	Foi Zambroski quem se encarregou dessa documentao 	Mark lembrou.
	Sim, claro. Mas queremos que voc tambm entre nesse caso. Para verificar se a papelada est toda em ordem, voc sabe.
	Brightman no esperou por uma resposta.  s treze horas na sala de reunies.
Mark voltou furioso para seu escritrio. Entrar no caso? Verificar a papelada? Com quem eles pensavam que estavam brincando? Todo mundo na empresa sabia que Zambroski esperava ansioso uma oportunidade de puxar seu tapete!
Esforou-se para conseguir se concentrar no trabalho e esquecer a raiva, mas por volta das onze horas estava mais impaciente que nunca.
- Hei, bonita foto, Mark!  Zambroski ironizou, mostrando apenas a cabea na fresta da porta e o jornal que trazia  mo.
Para Mark, aquilo foi a gota d'gua.
 Avise  santa trindade que fiquei doente e fui para casa  disse  sua secretria ao passar pela mesa dela, em direo  sada.
Kim acordou com o insistente barulho da campainha. Abriu os olhos sonolentos e virou-se para o relgio. Dez e trinta e dois. Vestiu o robe, passou a mo pelos cabelos e desceu a escada. Espiou pela janela e viu o mercedes de Suzanne estacionado em frente a casa.
: Ora, at que enfim!  exclamou ela quando Kim abriu a porta.
  Posso ajud-la em alguma coisa?
Suzanne tirou as luvas de couro, afrouxando um dedo de cada vez.
	Por acaso deu uma olhada nos jornais de hoje?
Kim passou a mo pelo rosto. No vira nem o espelho ainda!
	No  respondeu.  Por qu?  Nem precisou pensar muito para saber a resposta.  Oh, no  possvel.
Suzanne abriu o jornal que trazia embaixo do brao.
	Voc ficou lindssima  ironizou.
Kim olhou a foto e teve vontade de morrer. Ela no tinha noo do quanto seu corpo ficava exposto naquele uniforme. Mark estava com a mo em seus ombros, um gesto de intimidade que s agora ela se dava conta.
Voltou a passar a mo sobre o rosto, s que agora ela estava trmula.
	Pelo menos escreveram os nomes de maneira correta comentou.
Suzanne balanou a cabea, como se no acreditasse no que acabara de ouvir.
	Tem ideia do quanto isso ir prejudicar a carreira de Mark?
Kim engoliu seco.
	No, no tenho. O que h de mal em um homem sair em uma foto de jornal ao lado da sobrinha?
	Que acabou de ser presa em um local de contrabando, usando uma roupa indecente? No diga, deixe-me adivinhar... Suzanne respondeu, sarcstica.

	, acho que a notcia no agradar as pessoas que trabalham com ele.
	No apenas elas  Suzanne suspirou.  O pior so os clientes e nossos concorrentes! Sem contar o que isso far ao futuro de Mark na poltica!
Kim empalideceu.
	Poltica?
Suzanne encaminhou-se para a porta.
	Faa um favor a todos ns, queridinha: saia da vida de Mark. Ainda no consegui entender direito o que voc est fazendo aqui, mas estou comeando a ter noo de que sua inteno  trazer problemas.
Saiu fazendo barulho com os saltos dos sapatos. Kim pegou o jornal no cho e mal havia lido algumas palavras, quando o telefone tocou.
	Al?
	Kim Wade?  indagou uma voz masculina.
	Sim.
	Aqui  Joe Hansen do jornal...
Kim desligou o telefone antes mesmo que o homem terminasse a frase. Trmula, sentou no sof ainda com o jornal na mo. O telefone voltou a tocar. Dessa vez era o chefe do escritrio onde ela trabalhava de dia. Para sua surpresa, ele lera a notcia e estava rindo da histria, ao invs de censur-la.
	Agradeo sua compreenso  disse Kim.  Honestamente, pensei que tivesse ligado para me despedir do emprego. 
	Por qu? Por trabalhar em outro emprego? Kim, no seja boba. S liguei para dizer que relaxe. Deve estar passando um dia difcil. O que acha de sairmos hoje  noite? Jantaremos em um lugar tranquilo e aconchegante onde ningum possa aborrec-la...
Kim tornou-se sria.
	Eu... sinto muito, mas no estou disponvel para jantar.
Nem tampouco para trabalhar. Se quer saber, pegue esse cargo que ocupo a e... j sabe o que fazer com ele!
Desligou o telefone com um gesto enrgico.
	Estou feliz em no ser essa pessoa.
Kim virou o rosto de repente. Mark estava de p  porta, com o palet jogado sobre o ombro. Exibia um daqueles sorrisos que a deixavam com as pernas moles.
	Mark, sente-se. As consequncias do que aconteceu  noite no foram nem um pouco boas.
	Ah, ento j est sabendo.
Ela pestanejou.
	Sim. Voc tambm?
	Infelizmente.
	Oh, Mark, sinto muito!
Ele aproximou-se e colocou o dedo sobre os lbios de Kim, silenciando-a.
	O que temos para almoar?  perguntou.
	Mas Mark...
	No quero ouvir mais nada.
S ento Kim percebeu que continuava de roupo e chinelos felpudos.
	Que tal um refogado de repolho, bacon e tomates?
Hmm, divino!
Ele tomou-a pela mo e levou-a  cozinha. O toque provocou arrepios da cabea aos ps de Kim.
	Por que chegou to cedo?  ela perguntou.
	Decidi comear o fim-de-semana mais cedo.
Deu uma piscadela para Kim, deixando o palet sobre uma cadeira. Kim havia acabado de abrir a geladeira quando o telefone comeou a tocar. Os dois entreolharam-se.
	Deixe a secretria eletrniea responder  Mark avisou.
	Com todo prazer.
Kim comeou a cortar pedaos de bacon, enquanto Mark cortava rodelas de tomate.
O telefonema era da secretria dele, perguntando se ele estava mesmo decidido a faltar  reunio das treze horas. Mark nem se deu ao trabalho de responder.
Enquanto almoavam, algum tempo depois, Mark fitou-a por sobre a mesa e anunciou:
	Kim, quero lhe apresentar ao maravilhoso mundo do esqui no Colorado.
Ela arregalou os olhos.
	Esqui? Onde? Quando?
Tambm ia perguntar por qu, mas j sabia a resposta.
	Breckenridge. Poderemos partir hoje mesmo, assim que arrumarmos a bagagem.
	No est falando srio, est?  O brilho que ela viu no olhar dele foi suficiente como resposta.  S h um pequeno problema, Mark. No, dois. Ou melhor, trs.
Ele arqueou uma sobrancelha.
	Nunca esquiei na vida  Kim completou.
	Tudo bem. Poder aprender. Qual  o prximo problema?
	No tenho equipamentos nem roupas.
	Hmm  ele olhou o relgio.  Ento teremos que viajar um pouco mais tarde que o planejado. Qual  o terceiro?
	No quero gastar meu dinheiro com algo to frvolo como esquiar.
	Voc ser minha convidada, Kim. No ter que pagar as despesas.  Ficou de p e a fez ficar tambm.  Agora mexa-se.
Breckenridge fica a umas trs horas daqui e temos coisas a fazer antes de partirmos.
	Mark, no posso aceitar. J fez muito por mim.
	Farei isso mais por mim do que por voc, anjo. Quero ficar algum tempo longe de toda essa presso que estou sentindo por aqui. Vamos nos divertir um pouco. Quando voltarmos, no do mingo  noite, tudo estar mais calmo. Vamos, por favor... ele pediu de uma maneira irresistvel.
	Bem, j que estou desempregada mesmo...  Kim gemeu ao se dar conta de que teria de procurar outro emprego na segunda-feira.  O que faremos primeiro?
Mark riu.
	Iremos s compras, meu anjo.
Kim sorriu, feliz. Nunca algum se preocupara tanto com ela quanto Mark nas duas ltimas semanas. Mas no era pela viagem que estava feliz. Seu sentimento devia-se a detalhes menores. Ele fora a nica pessoa que no rira quando ela lhe contara sobre seu sonho de ser bab. Tambm no fizera sequer um comentrio sobre o uniforme que ela usava no restaurante.
Mark era um verdadeiro cavalheiro e, provavelmente pelo fato de nunca haver conhecido um antes, foi que Kim se deu conta de que estava apaixonada por ele.

CAPITULO VII

Quando chegaram em Breckenridge ja havia escurecido. As trilhas de esqui, localizadas entre as trs montanhas que circundavam a cidade, no momento encontravam-se desertas. Todavia, logo o lugar seria invadido nela contagiante animao das pessoas que costumavam visit-lo naquela poca do ano.
Mark havia ligado com antecedncia e reservado dois quartos em um dos hotis da cidade. O quarto de Kim fiquava em frente ao dele. Deixaram as portas abertas para que pudessem conversar enquanto desfaziam as malas. Mark ria a todo instante Kim encantava-se com coisas que para ele eram perfeitamente normais, como sentir a maciez do tapete felpudo sob os ps descalos e a quantidade de apetrechos para banho que havia no banheiro.
	Prontinho!  ela anunciou, sorrindo.
Era noite de sexta-feira e o lugar estiva se enchendo de visi. tantes para passar o fim-de-semana. Ouviram msica. e vozes vindas de algum local no andar de baixo.
	Tambm j terminei  respondeu Mark.  Est desperta o suficiente para irmos at l embaixo?
	Claro.
Seguiram o som da msica e entraram em um salo no primeiro andar. Uma banda tocava canes tpicas dia regio enquanto casajs se divertiam na pista de dana. Conseguiram encontrar uma mesa com dois lugares.
	O que vai querer? - Mark indagou junto ao ouvido de Mm, para que ela pudesse escut-lo.
	Hmm, acho que um... martni. 
	Martni?  ele repetiu depois que a garonete se retirou com o pedido.
	Sim  confirmou Kim.  E que nunca tomei um antes, e como esse parece ser um fim-de-semana destinado a novas experincias...  desviou o olhar, enrubescida.
Os drinques chegaram.
	Melhor ir devagar com o martni, Kimberly  Mark avisou-a.
	Sim, senhor  ela sorriu.
O pessoal da mesa ao lado era um animado grupo de jovens.
	Oi!  um dos rapazes sorriu para Kim. Estivera olhando-a desde que ela havia sentado.
O sorriso hesitante que ela deu em resposta, fez Mark sentir-se na obrigao de dizer ao ouvido dela:
	Tudo bem. Pode cumpriment-lo.
Kim falou com o rapaz, enquanto Mark pensava que aquele havia sido justamente um dos motivos que o levara a convid-la para a viagem. Kim precisava conhecer novas pessoas; jovens como ela.
Quando o rapaz perguntou se podia danar com Kim, Mark aproveitou a oportunidade para explicar que os dois no estavam juntos.
	Kim  minha sobrinha  disse.
Entretanto, falar aquilo estava se tornando cada vez mais difcil. No fundo, Mark sabia que a deciso de manter-se imune aos encantos de Kim no duraria muito.
No dia seguinte, enquanto lavava os cabelos, no final da tarde, Kim imaginou que se pudesse escolher um dia de sua vida para guardar para sempre em uma garrafa mgica, e record-lo quando bem entendesse, seria justamente esse. Aprendera a esquiar!
No perfeitamente, claro. Mas pelo menos conseguira deslizar sobre a neve por um bom tempo sem cair. Mark disse que nunca vira algum aprender to rpido em apenas um dia de treinamento. Segundo ele, se ela continuasse naquele ritmo, logo estaria esquiando muito bem.
Ele prprio era um exmio esquiador. Enquanto Kim tomava a primeira lio pela manh, ele se aventurara sozinho por algumas partes da pista. Ao voltar para junto dela, estava com os cabelos midos e o rosto corado devido ao vento.

	Onde esteve?  Kim indagara.
	Fui dar uma volta por a  Mark respondera com um sorriso charmoso.  Quando aprender um pouco mais e puder me acompanhar, lhe mostrarei os lugares incrveis que existem aqui, nesta estao de esqui.
Kim sentiu o corao acelerar s de lembrar o modo como Mark a fitara ao dizer aquilo.
Haviam passado o dia inteiro juntos. Kim retirou o xampu dos cabelos e riu consigo mesma quando novas lembranas invadiram sua mente. A melhor delas fora o passeio que ela e Mark fizeram pela floresta.
Felizmente, conseguira at se sair muito bem com os esquis e no batera em nenhuma rvore. Entretanto, seu corpo ainda estava dolorido pelo esforo de se equilibrar. Os esquis e botas pesadas haviam sulcado tanto a neve que a certa altura ela teve a impresso de estar presa a uma base de cimento.
Mark aparecera a seu lado quase no mesmo instante.
	Voc est bem?
	Creio que sim. Estou grudada.
Ao se dar conta da situao, Kim comeou a rir.
	O que disse?  Mark perguntou.
	Estou grudada na neve. Acho que ter que me socorrer mais uma vez, sr. Cavalheiro.
	Com todo prazer.  A gentileza da voz dele deixou-a encantada.  Primeiro vou tirar meus esquis, caso contrrio, daqui a pouco seremos dois precisando de ajuda.
A tarefa de desenterr-la da neve, acabara virando uma verdadeira comdia. Mark ficava nas posies mais engraadas, esforando-se para puxar os esquis e Kim, que no tinha outra alternativa a no ser ficar olhando, morrendo de rir com a situao.
Quando finalmente Kim se livrou, ambos estavam ofegantes; ela de tanto rir e Mark de se esforar. Ele acabou rindo tambm, contagiado pela animao dela.
, o dia fora mesmo perfeito, pensou Kim, comeando a se enxugar. Um cu azul como ela nunca vira, o ar leve como uma brisa e Mark mais atraente do que qualquer homem que ela j vira.
A tarde, foram ao centro da cidade, onde passaram mais de uma hora visitando lojas e admirando a autntica arquitetura vitoriana das construes.
Agora estava faminta. Por certo, o exerccio e o ar fresco abriram seu apetite. Secou os cabelos e se vestiu depressa.
	Estou com uma boa aparncia?  perguntou a Mark quando se encontraram no corredor.
	Oh, nossa!  Mark respondeu quase num sussurro, fitando-a da cabea aos ps.
Kim no entendeu muito bem se aquilo fora um elogio ou uma crtica. Pensara que sua roupa estava boa. Ser que a blusa no combinava com o jeans? Ela era um pouco formal: seda creme, mangas largas e um decote discreto.
	O que significa esse "oh, nossa"? Eu no trouxe muitas roupas, como voc sabe.
Mark sorriu. Pousando as mos nos ombros dela, fez com que Kim ficasse de frente para um espelho oval, emoldurado. A moldura assemelhava-se  dos quadros dispostos ao longo do corredor, todos exibindo retratos antigos.
	J pensou em parar de ficar na defensiva o bastante para se olhar ao espelho?  Passou um brao em torno dela, enquanto com a outra mo a fazia erguer o queixo.  D uma olhada em voc, Kim  mandou.
Ela fez o que ele mandara, mas no notou nada diferente. A nica coisa sobre a qual estava consciente era o calor do corpo de Mark bem junto ao seu.
	Voc est belssima  completou ele, enfatizando cada palavra.
Kim mirou-se novamente, mas o que viu no foi apenas sua imagem, mas sim a de um casal com um brilho especial no olhar. Por um momento, imaginou estar em um outro tempo, o mesmo em que aquelas pessoas dos retratos haviam vivido.
De sbito o sorriso de Mark se desvaneceu. Kim poderia jurar que vira um ar de apreenso em seu rosto.
	Onde gostaria de comer?  questionou ele, soltando-a.
	Qualquer lugar  ela respondeu. Contanto que se juntassem a outras pessoas, e logo.
Mark abraou-a levemente pela cintura quando se dirigiram ao elevador.
	Espero que no se importe de comer aqui mesmo, ento  ele conjecturou.
	No. Para mim est timo.
Pouco depois passaram por uma porta em forma de arco, a entrada do restaurante.
Kim olhou ao redor, encantada com o ambiente aconchegante, proporcionado pela luz indireta e o som de um piano ao fundo. Seguiram o matre at uma mesa prxima a um belssimo vitral.
	Fiquem  vontade  o matre sorriu e se retirou.
Kim imaginou se ele pensara que eram um casal.
	Vamos esquiar amanh de novo?  Kim perguntou, abrindo o menu.
	Sim, se quiser. Por qu?
	Estou pensando se no seria melhor pedir alguma massa.
Para acumular energia, sabe.
Mark riu.
	Pea o que quiser.
Kim ia perguntar a que horas ele pretendia voltar para casa, porm as palavras no saram. Queria que o fim-de-semana durasse para sempre.
	Ento vou querer um tortellini com molho  anunciou ela.
Mark pediu o mesmo e vinho para acompanhar.
Enquanto comiam, comentavam os acontecimentos do dia, os lugares que haviam conhecido. De vez em quando pegavam-se rindo novamente.
	 estranho, mas ainda estou com a sensao de estar com esquis  Kim declarou.  Meus ps esto leves e quando fecho os olhos tenho a impresso de estar deslizando.
	Tem certeza de que no  aquele mesmo efeito que sentiu aps viajar de avio, devido  altitude? Essa regio aqui tambm  um bocado alta.
Kim fitou-o nos olhos. Sabia bem que no era a altitude que a estava deixando zonza nos ltimos dias.
Terminaram a refeio, que por sinal estava deliciosa, e quando tomavam caf, Kim no pde deixar de pensar na volta para Colorado Springs.
	No seria maravilhoso se...  ela interrompeu-se.
	Se o qu?
	Nada.
	Se no tivssemos que voltar?  Mark completou.
Kim desviou a vista e balanou a cabea que sim.
Est gostando, no est?  ele colocou a mo sobre a dela.
Kim tornou-se confusa. Aquele simples toque provocava arrepios por todo seu corpo. Deveria retirar a mo? Perguntar o que ele estava fazendo?
Embora hesitante, voltou a encar-lo. O olhar de Mark estava fixo em seu rosto,  procura do menor sinal de recusa por parte dela. Mark j segurara a mo dela antes, mas dessa vez estava sendo diferente. Kim nem ousou se mexer. Deliciada com o calor daquele toque, virou a palma da mo para cima, permitindo que Mark a tocasse com mais intimidade.
	Quer danar comigo?  convidou ele com um brilho intenso no olhar.
O pianista comeara a tocar uma srie de canes romnticas das dcadas de quarenta e cinquenta. Alguns casais j danavam na pista.
Kim ficou de p, imaginando se suas pernas aguentariam o peso de sua emoo. Sentia-se frgil, leve, como uma borboleta sem destino para pousar.
Quando Mark a enlaou pela cintura, segurando a mo dela junto ao corao, a realidade finalmente se revelou. At agora podiam at ter usado desculpas para as ocasionais demonstraes de afeto, mas danar assim, to prximos um do outro era diferente.
Nos braos de Mark, Kim perdeu a noo de si mesma e do lugar onde se encontravam. Vislumbrou mil promessas no brilho dos olhos incrivelmente azuis. Percebeu que ele continuava esperando por sinais de resistncia da parte dela e quando Kim no as demonstrou, Mark apertou-a ainda mais junto de si. Podia sentir a respirao dele de encontro a seus cabelos, e a sensao fez seu corao bater mais forte.
Com um leve suspiro, Kim rendeu-se  atrao que sentira desde o momento em que haviam se conhecido. Deixou-se ficar no aconchego carinhoso daqueles braos fortes, aproveitando cada instante do momento mgico, singular...
Ambos renderam-se. No havia meio de algum dos dois racionalizar o que acontecia, mesmo que quisessem. Estavam enfeitiados demais para isso. Mark acariciava as costas de Kim com gestos lnguidos, ternos. Inclinou um pouco a cabea, de modo que seus lbios entreabertos tocassem as tmporas dela.
A msica terminou e aps um ligeiro acorde, o pianista logo comeou a tocar outra. Mark ergueu a cabea o suficiente para olhar o rosto de Kim.
	Mais uma?
Ela abriu os lbios para responder e viu Mark inclinar a cabea em sua direo.
"Ele vai me beijar", pensou Kim, o corao descompassado. S que ele no o fez. Ela no o teria censurado; at gostaria de ter sido beijada. Quando Mark deslizou a mo por baixo de seus cabelos e comeou a lhe acariciar a nuca, Kim sentiu o cho sumir sob seus ps.
	Preciso me sentar um pouco, Kim  Mark sussurrou ao seu ouvido.
Ela surpreendeu-se.
	Por qu? Qual  o problema?
	Voc. Voc  o problema.
O olhar cheio de desejo que ele lhe lanou foi suficiente para fazer Kim entender.
Voltaram para a mesa no mais como amigos, mas como amantes. Entreolharam-se por um longo tempo, atravs da tnue luz do ambiente. De sbito, Mark desviou o olhar e passou a mo pelos cabelos, demonstrando que lutava para se controlar.
	O que diabos est havendo conosco, Kim?
Ela sentia-se to perdida quanto ele e s o que fez foi menear a cabea em resposta.
	Desejam mais alguma coisa?  o maitre perguntou.
Ambos se sobressaltaram. At ento, a impresso que tinham era a de que estavam sozinhos no mundo.
	S a conta, por favor  Mark respondeu.
Alguns minutos depois, entraram no elevador, onde outros hspedes conversavam animadamente. Kim mal ouvia o que diziam e teve a impresso de que Mark estava to distrado quanto ela.
Como terminaria a noite?, pensava ela. Com um beijo? Mais? Ou com Mark se arrependendo do que fizera?
Ele ficou ao lado dela enquanto Kim procurava a chave na bolsa. Surpreendeu-se quando abriu a porta e Mark tambm entrou no quarto.
	Sei que estamos cansados  disse ele, como que para acalmar qualquer receio que ela pudesse ter.  Tivemos um dia  movimentado...  dirigiu-se  porta, que ficara entreaberta.  S entrei para verificar se estava tudo bem  justificou-se.
	Pensou que houvesse algum drago embaixo da cama? Kim brincou.
Um leve sorriso insinuou-se nos lbios dele.
	Quem sabe  respondeu, evasivo.
	 um verdadeiro cavalheiro, Mark Johnson.
Dizendo isso, Kim aproximou-se e acariciou o rosto dele. Mark fechou os olhos, beijando a palma da mo dela. Em questo de segundos, j estreitava Kim nos braos.
	Oh, Kim... Kim, sinto tanto!
Ela correspondeu ao abrao, acariciando os cabelos da nuca de Mark.
	No tem do que se desculpar.
	Queria tanto senti-la assim em meus braos...
Kim nunca havia sido abraada daquela maneira carinhosa. Sentia o corao prestes a explodir de contentamento.
	Eu tambm, Mark...  confessou.
Ainda pronunciava o nome dele quando Mark a beijou. Ouviu a porta se fechando devagar. Ele a beijava com carinho e nsia, como se quisesse recuperar todo o tempo em que esperara por esse momento. Gemeu baixinho quando percebeu que Kim correspondia a cada carcia.
Kim nunca sentira um desejo to avassalador, intenso. Devia ser porque nunca conhecera um homem como Mark. Ele era mais velho, experiente e com certeza sabia exatamente como desperta tal resposta em uma mulher.
Ele aprisionou os cabelos de Kim com ambas as mos, enquante explorava com a lngua os doces recantos da boca que sempr achara to convidativa. Era como um prmio que ele finalmente conseguira conquistar.
Deslizou as mos pelas costas de Kim at alcanar os quadris arredondados, as ndegas firmes. Acariciou cada curva, como se quisesse conhecer todo seu corpo de uma s vez.
Pela primeira na vida, Kim teve medo de sucumbir e render-se por completo s carcias de um homem. Seria pura loucura, disse-lhe uma vz interior. Ela e Mark haviam apenas comeado um enlace romntico. Sempre pensara que quando fizesse amor j estaria casada.
Entretanto, o desejo que queimava entre ela e Mark no tinha nada a ver com essa fantasia juvenil. Ainda assim, a voz da razo falou mais alto, conseguindo alert-la para o fato de que ainda no estavam preparados. Pelo menos, ela no estava.
	Mark...  disse e afastou-se um pouco, tentando recuperar o flego.  Mark, precisamos parar.
Ele gemeu, demonstrando seu desapontamento.
	Eu sei. Sinto muito. No deveramos ter ido to longe...
Enquanto falava, continuava a beij-la repetidamente.
	Pare Mark, por favor... Mark!  Kim colocou as mos sobre o peito dele.
	Sim. Est bem.
Fechando os olhos, ele encostou a testa na dela e respirou fundo. Afastou-se depois de algum tempo.
Para Kim, foi como se um pedao dela houvesse se afastado com Mark. Sua vontade era jogar-se em seus braos e deixar que ele a amasse. Ele andou at a janela.
	Como explicaramos isso a Miriam?  inquiriu Mark, imaginando que esse havia sido o motivo que levara Kim a rejeit-lo.
	Miriam?
	Sim. Ela a mandou para c para que eu cuidasse de voc.
No entanto, tra a confiana dela e comecei a fazer asneiras. Que tipo de homem posso ser considerado?
Kim cruzou os braos, sentindo-se muito s de repente.
	Asneira?  isso que pensa sobre o que aconteceu?  indagou, com voz trmula.
Ele voltou-se para ela.
	Desculpe. No foi isso que eu quis dizer.  Enfiou as mos nos bolsos e perambulou pelo aposento.  Contudo, tem de concordar que trata-se de uma situao delicada. Nem posso imaginar como explicaria a ela. Alm disso, o problema no  apenas Miriam...  hesitou.  Kim, o que diramos s pessoas que conheo em Colorado Springs?
Kim sentou em uma cadeira, desolada. Mark tinha razo. Era urn advogado bem-sucedido e trabalhava para uma empresa de Prestgio. Alm do mais, tinha uma namorada bem mais apropriada ao seu estilo de vida.
	Tentei apresent-la como minha sobrinha, mas nem assim Os jornais perdoaram, como voc mesma sabe. Se comearmos a aparecer como um casal agora, as pessoas pensaro que menti de propsito, para encobrir que estvamos morando juntos. Minha reputao seria comprometida.
"Reputao uma ova!", pensou Kim, recusando-se a encar-lo.
	No podemos levar isso adiante  Mark prosseguiu.  Temos que pr um fim nesse relacionamento agora, neste instante.
Kim permaneceu em silncio, a garganta embargada. Estava claro que Mark no gostava dela o suficiente para arriscar sua imagem. Ainda tinha metas a atingir na carreira de advogado. O nome Kim Wade simplesmente no se encaixava nos planos dele. Pior: apaixonara-se por ele, mesmo sabendo disso todo o tempo!
Quando a raiva de si mesma tornou-se mais forte que o desapontamento, conseguiu at sorrir.
	No se preocupe, Mark. Vamos esquecer o que aconteceu.
Mark estreitou o olhar.
	Est mesmo sendo sincera?

	Claro. As pessoas comeariam a falar de nossa diferena de idade, de nosso relativo parentesco, entre outras coisas. Por isso,  melhor esquecermos o que aconteceu.
	Kim, eu nunca...  Mark interrompeu-se. Por fim, deu de ombros.  Tem razo. Fico feliz que tenha compreendido.
	E eu estou feliz por voc estar. Agora, creio que ambos precisamos de uma boa noite de sono, ainda mais se quisermos esquiar um pouco mais amanh.
Mark olhou-a por um longo tempo.
	Sim  respondeu finalmente.  Esquiaremos amanh.
Por mais que aparentasse estar tranquilo, Mark saiu com uma sombra de confuso na mente e no olhar.
Quando j estava deitada, Kim olhou o teto do quarto semi-escuro, pensando nos acontecimentos do dia. Nunca aprendera e rira tanto. E amara tambm.
Num impulso, pegou o dirio sobre a mesa de cabeceira e comeou a escrever. Havia tanto a recordar e registrar! Todavia, quando fechou o caderno, cerca de meia hora depois, s havia uma frase em sua mente: "No existem dias perfeitos".

CAPITULO VIII

J fazia algum tempo que estavam na estrada de volta para Colorado Springs quando Kim falou:
	Mark. ser que podamos parar um pouco?
	Boa ideia  ele respondeu, desviando o carro para o acostamento.  Tambm estou precisando descansar um pouco.
	No  isso. Estou querendo dizer se no poderamos voltar e dar uma olhada naquela casa velha pela qual passamos ainda h pouco.  raro encontrar uma moradia assim, entre as montanhas.
Mark hesitou, mas acabou fazendo o que ela pedira. Era um alvio ver Kim interessada em algo novamente.
	 uma genuna cabana de troncos, no ?
As botas de ambos afundavam na neve, enquanto caminhavam em direo  pequena cabana abandonada.
	Sim  Mark confirmou. Estava acostumado a ver cabanas como aquela.
O interior estava vazio e escuro. Tinha trs aposentos e duas janelas. A porta havia sumido.
	Ser que algum j morou aqui?  Kim questionou, entrando na cabana.
	E provvel.
Os olhos dela brilharam.
	No consigo imaginar. Essas montanhas so muito bonitas, roas tambm bastante amedrontadoras. O que ser que passou Pela cabea dessas pessoas para decidirem construir uma cabana bem aqui, no meio do nada?
Mark sentou na soleira da porta e dobrou os joelhos.
 Talvez quisessem realizar um sonho  conjecturou ele.
A porta era estreita e quando ela se juntou a ele, seus ombros quase se tocaram.
	Que tipo de sonho seria? Algum sonho dourado?
	Talvez.
Num gesto automtico, ole ergueu o brao e estava prestes a coloc-lo sobre o ombro dela, porm se conteve a tempo.
	J que estamos falando sobre sonhos...  ele comeou, hesitante  ...me fale mais sobre essa histria de querer se tomar bab. Confesso que estou curioso para saber quando voc tomou essa deciso.
Kim no respondeu de imediato. Mark entendeu. Tambm no gostava que as pessoas bisbilhotassem sua vida.
	Tomei essa deciso h um bom tempo  ela finalmente respondeu.  Quando tinha quinze anos.
	To cedo?
	Sim. Naquela poca eu andava com um grupo de amigos, no eram l grandes companhias. Aquele perodo tambm no foi muito fcil para mim.
	No precisa contar mais detalhes, se no quiser.
Kim abaixou a vista. Respirou fundo ao prosseguir:
	Sempre morei no Brooklyn, com meu pai. Nossa vizinhana tambm no era das melhores. Na verdade, a casa pertencia  minha av, antes de ela morrer e deix-la como herana para meu pai. Um sobrado. Quando eu era criana, ela morava no andar de cima e eu e papai no de baixo.
	E onde sua me estava nessa poca?
O olhar de Kim desviou-se para a paisagem, como que procurando algo. Apenas deu de ombros, em resposta.
	Como assim? No sabe?  Mark inquiriu.
	Ela e meu pai se divorciaram quando eu tinha trs anos.-Nunca mais a vi desde ento.
Mark ergueu o brao e dessa vez deixou que ele a tocasse. Kim nem pareceu notar.
	Quem cuidou de voc?
	Minha av.
	E quando ela morreu?  Mark indagou.

	Eu tinha nove anos. Comecei a me virar sozinha, apesar de ainda ter meu pai, claro...
	E ele no cuidou de voc?
	Meu pai tinha problema de alcoolismo.
	Muito srio?
	O suficiente para atrapalhar nossa convivncia. Por fim, isso o matou.
	Quer dizer que o acidente... Ele estava dirigindo bbado?
 Mark perguntou.
Kim assentiu em silncio.
	Quando foi que minha irm entrou nessa histria?
	Deixe-me pensar... Eu tinha quinze anos quando meu pai a conheceu. Hei, mas eu estava falando de uma poca bem anterior da minha vida!
	Ento continue. Prometo no atrapalhar mais. Voc andava com um grupo de amigos...
	Sim. Costumvamos sentar nos bancos do Central Park e zombar das pessoas que passavam pela Quinta Avenida. Que horror...  riu consigo.  Em um desses dias, vi duas jovens sarem de um prdio de apartamentos empurrando carrinhos de beb.
	Eram babs?
	Sim. S que levei algum tempo para saber disso. Fiquei curiosa e acabei indo puxar conversa com elas. Mas imagine s a situao: eu tinha um cigarro no canto da boca, estava vestida com uma roupa toda gasta. Havia prendido um broche bem aqui  apontou o lado esquerdo do peito , onde se lia: "Nasci para ser rebelde".
Mark esforou-se para no rir, mas no conseguiu.
	Desculpe. Aproximou-se das duas moas e...?
	Eu s queria perguntar a elas como era possvel conseguir um emprego daqueles.
	E o que elas responderam?
	Uma delas me explicou que elas no eram babs comuns, dessas que cuidam da criana apenas enquanto a me est fora.
Elas moravam com as famlias para as quais trabalhavam. Tomavam conta dos bebs por tempo integral. Bem, devo ter ficado muito curiosa e comeado a fazer mil perguntas, porque as duas me olharam de um modo qu nunca mais esqueci.  Kim ficou cabisbaixa. Aps um bom tempo, ergueu a cabea e fitou o horizonte com olhar vago.  S o que eu queria eram informaes.
Aquele tipo de emprego me encantou. Eu sabia que era capaz de cuidar de uma criana to bem quanto elas.
Mark sentiu uma imensa vontade de abra-la.  E como elas a olharam, Kim?
Ela exalou um profundo suspiro.
	Com medo. E eu era a causa disso.
	O que elas fizeram?  Mark perguntou, gentil.
Kim retirou a mo dele de seu ombro.

	Oua, no quero que sinta pena de mim. Foi uma experincia
muito boa. Depois disso, percebi que,eu no passava de uma pessoa intil. Por isso resolvi mudar.
	O que elas fizeram?  Mark insistiu.
	Disseram que se eu no me afastasse chamariam a polcia. Um guarda do parque, que ia passando por perto, foi averiguar o que acontecia e mandou que eu e meus colegas sassemos dali. 
	E vocs obedeceram?
	Sim. Este  o fim da histria.  Kim levantou-se da soleira da porta.  Tive que me informar sobre a profisso de bab em uma biblioteca.
Mark abraou os joelhos, levantando a vista para ela. Kim tentava parecer indiferente, mas ele sabia que aquele incidente a havia magoado. Mais que isso: mudara a vida dela.
	J vi o suficiente desse lugar  anunciou ela, jogando os cabelos para trs.  Vamos continuar a viagem.
Mark sabia que a atitude meio agressiva era apenas uma capa para esconder a mgoa que Kim guardava dentro de si, mas mesmo j assim atendeu a ordem.
A noite, enquanto jantavam, a luz vermelha da secretria eletrnica no parava de piscar, indicando que haviam recados a serem escutados.
Os dois dividiam uma pizza diante da lareira acesa. Sentados no tapete oriental alugado, fingiam no ver a luz que acendia e apagava a toda hora.
Quando terminou, Kim jogou o guardanapo dentro da caixa vazia de pizza, encarando o fato de que o fim-de-semana terminara. Estavam de volta ao mundo real, e nenhum de seus problemas havia desaparecido.
Mark foi at o telefone e ligou a secretria eletrnica para ouvir as mensagens. A primeira era de Suzanne, perguntando onde ele estava. A segunda tambm era dela:
	Pelo amor de Deus, Mark! O que deu em voc para sair do escritrio ainda no horrio de trabalho? Usei todas as desculpas que podia a seu favor, e consegui ajeitar as coisas, se quer saber.
Mas meu pai continua intrigado com essa histria, e eu tambm. Ligue-me assim que puder.
Kim lanou-lhe um olhar espantado.
	Voc saiu no meio do trabalho?
Ele apenas deu de ombros. Continuaram ouvindo as mensagens.
	Mark? Aqui  Bob, de Nova York. Ligue-me assim que puder. Chequei o registro de escrituras e tenho novidades para lhe contar sobre o dia dezesseis...
Mark apressou-se em desligar a mquina. Kim sentiu algo estranho no ar.
	O que ele quis dizer?  perguntou, apreensiva.
	Nada. Assuntos de trabalho.
	Para um advogado voc mente muito mal, Dr. Johnson.
Dezesseis era o dia em que Miriam deveria assinar os documentos de transferncia da casa, mas os compradores acabaram desistindo.
E no me diga que a mensagem  apenas uma coincidncia!
Mark massageou a nuca.
	Est bem  admitiu.  Eu no quis deix-la preocupada antes da viagem, mas ainda acredito que deve haver alguma explicao...
	Fale logo, Mark!
	Tentei ligar para Miriam na semana passada, mas s o que ouvi foi um recado da companhia telefnica dizendo que aquele nmero no estava funcionando mais.
Sentada no cho, Kim abraou os joelhos. Experimentou um familiar arrepio na espinha.
	Quando no pude entrar em contato com ela, fiquei preocupado  Mark prosseguiu.  Ento liguei para um amigo meu que mora em Nova York e pedi a ele para checar o que havia acontecido.
	Esse que deixou o recado?
	Sim.
	Bem, sendo assim  melhor descobrir logo o que ele tem a dizer.
Quando Mark voltou do escritrio, uns dez minutos depois, Kim fitava o teto, sentada no sof. Ele sentou ao lado dela e permaneceu muito quieto. O nico barulho da sala era o do fogo crepitando na lareira.
- Segundo a minha experincia  Kim comeou num tom filosfico , ms notcias sempre chegam assim, de mansinho.
Mark suspirou.
	Ela vendeu a casa, Kim. Assinou a documentao no dia dezesseis mesmo. Os compradores no desistiram do negcio.
Kim sentiu um n na garganta e pensou que fosse chorar. Sentou ereta, olhando o fogo fixamente.
	Ento ela mentiu para mim  disse num fio de voz.
	Para mim tambm  Mark salientou.  Tem alguma ideia do motivo?  Vendo que ela no estava disposta a falar, ele insistiu:  Kim, por favor. No esconda nada de mim.  Kim continuou em silncio. Mark pegou-a pelos ombros, forando-a a encar-lo:  Olhe para mim, droga!  Soltou-a com um gesto brusco.  Foi o que pensei! Voc no passa de uma egoistazinha, que s pensa em seus prprios problemas. No se preocupa com o que pode ter acontecido a Miriam? Acha que ela merece isso, depois de hav-la criado e lhe dado carinho?
Kim olhava-o, completamente atnita. Sentiu a fria e a mgoa acumulada durante tantos anos crescendo dentro de si.
	Eu, egosta? Eu? No acredito no que estou ouvindo! Fique sabendo que sua irm me tratava com tanto carinho quanto se trata uma porta! S o que ela sempre quis de mim foi o pagamento que eu recebia aps trabalhar duro o ms inteiro! Porm, assim que teve chance de ficar com a herana de meu pai, no perdeu tempo em me colocar para fora de casa! A nica razo pela qual o telefone dela se encontra desativado  porque ela no quer que a encontremos! Deve ter fugido com Theodore e agora os dois esto gastando o dinheiro de meu pai!
Mark continuou sentado, nem um pouco abalado. Kim acalmou-se um pouco. Estranho, mas Mark estava to satisfeito consigo mesmo que parecia prestes a explodir em risos. Kim ficou confusa. O que dera nele, afinal? No mesmo instante ela se deu conta.
	Mark Johnson! Voc me enganou!  Ergueu a mo, fazende meno de bater no peito dele. Sentiu o rosto em chamas.
Oh, Mark. Sinto muito.
	No ligue para isso. Solte toda sua raiva.
Kim voltou a silenciar. A fria se fora, cedendo lugar  confuso. Mark tomou a mo dela e levou-a aos lbios. Sorriu, gentil, puxando-a para si.
	Voc deve vir acumulando muita mgoa de Miriam. No acha que est na hora de conversarmos sobre isso?
Kim encostou o rosto junto ao peito dele.
	Sua camisa est com o cheiro de seu perfume...  comentou.
	No mude de assunto, Kim. Agora me conte direito essa histria sobre Miriam. Quem  esse tal de Theodore?
Kim desvencilhou-se do abrao.
	Importa-se se no falarmos sobre isso?
	Me importo, sim. Ela  minha irm. Tenho o direito de saber a verdade.
Kim gemeu. A ltima coisa que queria era arruinar a imagem que Mark tinha da irm.
	No  nada importante.
	Vai me contar, ou terei que ligar de novo para meu amigo de Nova York?
	Quem  esse seu amigo, afinal de contas? Um policial?
	Detetive particular, e muito competente.
	Tudo bem. Mas depois no diga que no foi avisado! Kim respirou fundo e prosseguiu:  Miriam herdou toda a herana de meu pai.
Mark estreitou o olhar, incrdulo.
	Mas ele tambm deixou uma parte para voc no testamento?
 indagou.
	Ele no deixou testamento.
	Entendo. Ainda assim, voc deve ter herdado...
	Nada.
	Nada?
	Isso mesmo. Depois que ele e Miriam se casaram, a documentao da casa foi passada para o nome dela.
	E quanto  aplice de seguro?
Miriam balanou a cabea.
	Ela foi a nica beneficiada. Meu pai tambm passou a documentao para o nome dela.
	Qual foi a quantia?
	Avaliada pelo seguro?  Kim perguntou.  Quinze mil dlares.
	E a casa?
	Miriam colocou-a  venda por noventa mil.
Mark coou o queixo.
	Se o nome de Miriam houvesse ficado fora dos documentos, os bens de seu pai teriam que ser legitimados, e voc herdaria a maior parte deles. Sabe disso, no ?
Kim assentiu.
	Miriam ficou com mais alguma coisa?  ele perguntou.
	Sim  ela respondeu'.  Um pagamento interino no valor de trinta mil dlares do plano de aposentadoria de meu pai.
	Meu Deus.

	Hei, ela era esposa dele. Tinha direito a isso.
Mark olhou-a, incrdulo.
	Chegou a pensar em lutar por essa aposentadoria?
	No. Por que eu faria isso?  Kim enrolou uma mecha de cabelos enquanto falava, demonstrando que no estava sendo sincera.
Mark riu.
	No conseguiu ir muito longe. Acertei?
Ela parou de enrolar os cabelos. Quando Mark comeara a conhec-la to bem?
	Sim. Mas no ligo. Na verdade, at senti vergonha de ter feito isso, ainda mais por ter sido na mesma poca em que Miriam comeou a se mostrar mais atenciosa comigo. Prometeu que comearamos uma nova vida aqui, em Colorado Springs. Disse tambm que me ajudaria com a escola...
	E voc acreditou nela?
A garganta de Kim estava embargada.
	Eu quis acreditar, mas no fundo tinha dvidas. Por isso me senti impelida a comear logo a trabalhar e juntar dinheiro.
Estou acostumada a lidar com pessoas que no cumprem suas promessas.
	Imagino por qu  Mark replicou, sardnico.  Com uma me que a abandonou quando ainda era um beb, um pai que nunca foi sbrio e uma av...
	Hei! Minha av era maravilhosa!
	Ainda bem! Pelo menos uma pessoa a ajudou de alguma maneira.
	E o tal de Theodore?
	Ahn, ele  s um amigo.
	Kimberly!
Ela olhou-o de soslaio.
	Bem, ele ... o novo namorado de sua irm.
	Novo... mas j?!
Kim balanou a cabea que sim. - Acabar conhecendo-o quando Miriam chegar.
Ele desviou o olhar.
	O que foi, Mark?  ela tomou-se apreensiva.
	Kim, meu amigo de Nova York... Ele foi  sua antiga casa usando um disfarce da companhia telefnica...
	E ele viu Miriam?
	Sim, ela estava l, mas ficou evidente que preparava-se para mudar. Ele viu um caminho de mudanas parado diante da casa. Isso foi na sexta-feira, o dia em que viajamos para Breckenridge.
Kim no gostou do modo cuidadoso como Mark falava.
	E...?  incentivou-o.
	A casa estava vazia.
Kim ficou boquiaberta.
	Ah. Ento s o que nos resta fazer  esperar. Quanto tempo acha que ela levar para chegar aqui?
Mark passou o dorso da mo pelo rosto dela.
	Kim, o que estou tentando dizer  que no adianta esperar.
Quando Bob estava l, Miriam partiu. Disse a ele que no precisava verificar os fios do telefone porque a linha j havia sido cortada. Explicou que estava de mudana. S que no para Colorado Springs.  Ele hesitou.  Ela partiu para o sul, Kim.

CAPITULO IX

Para o Sul?!  Foi o que Bob disse.
Tomada pelo espanto, Kim levantou num impulso, aproximando-se da janela.
"Ento, Mriam tambm me abandonou", pensou ela. "Fugiu para comear uma nova vida, sem ao menos lembrar que eu existia!"
Voltou-se para Mark com um sorriso desolado. Ele continuava sentado prximo  lareira acesa. Tornara-se pensativo, distante. Fora to enganado quanto ela. Miriam usara-o e s agora ele se dava conta disso.
	Mark?
O chamado de Kim sobressaltou-o.
	Sim, meu anjo?
	Mark, eu... sinto t-lo atrapalhado todo esse tempo. Pelo visto, minha vinda at aqui no era muito necessria. Gostaria de poder retribuir o que fez por mim, mas s o que posso fazer  me desculpar e...  ela engoliu seco  ...sair de sua casa o quanto antes.
Mark pestanejou.
	O que est falando?
Kim comeou a enrolar uma mecha de cabelos, repetindo seu habitual gesto de nervosismo.
	Bem, sua irm  a nica razo de voc me tolerar aqui, e agora que ela no vir...
Mark ficou de p e num instante cruzou a distncia que os separava.
	No diga tolices. Para onde voc iria? No tem famlia e sua situao financeira no  das melhores.
	Tenho dinheiro suficiente para voltar para Nova York, de nibus, se for preciso.
Mark cruzou os braos, encarando-a.
	E depois?  indagou.  Ficaria com um problema maior do que o que tem agora.
	Posso ficar na casa de alguma amiga por um tempo Kim argumentou.
	Quanto tempo? Os aluguis em Nova York so exorbitantes.
Alm disso, voc precisa pagar a escola.
Mark tinha razo. Kim imaginou por que estaria discutindo. A ltima coisa que queria era sair dali, mas no pelas razes que ele pensava. No fundo, no suportava a ideia de deix-lo. Mark tomara-se parte de sua vida e mesmo que ele no a amasse tanto quanto ela o amava, ficar perto dele j seria um grande consolo.
Ela assentiu.
	Ok. Voc tem razo.
	Otimo.  Ele afastou-se com passos lentos, massageando a nuca.  No sei o que Miriam est planejando, mas  bem provvel que ela ligue em breve para dar alguma explicao. Ela costuma fazer isso. Quem sabe at no esteja pensando em cham-la para morar com ela no sul.
	No acredita muito no que est dizendo, acredita?
Mark hesitou.
	No sei. De qualquer maneira, no quero que se preocupe com uma moradia, trabalho ou a escola. Ainda no tenho resposta para muitas perguntas, mas espero descobri-las em breve. No est sozinha nisso, Kim.
	Obrigada.
	No h o que agradecer. Agora, por que no vai descansar um pouco? O dia foi cansativo e, se no se importa, quero ficar sozinho um pouco.
Kim chegou em casa tarde, no dia seguinte. Estacionou o cherokee na garagem, surpreendendo-se ao ver que o BMW j estava l.
	Mark?  chamou-o assim que abriu a porta.
	Estou aqui.
Sentado na sala de estar, ele lia o jornal. Estava com alguns cabelos cados sobre a testa e a gravata afrouxada. Kim parou um momento. Sempre ficava afetada quando o reencontrava.
	Onde esteve?  ele olhou-a por cima dos culos.
	Procurando um emprego.
	 mesmo? Venha aqui  indicou o lugar ao lado dele, no sof.
Kim tirou os sapatos e sentou, cruzando as pernas sob o corpo.
	Como foi seu dia?  perguntou a ele.  Houve alguma repercusso depois da sada sbita na sexta-feira?
Ele riu.
	Claro que houve. Os trs patetas esto soltando fumaa pelo nariz.
	Mark! Como pode rir de uma coisa dessas?
Ele dobrou o jornal, colocando-o sobre a mesa.
	Finalmente tiveram a oportunidade de ver Zambroski em ao e os resultados no foram muito bons. Agora me conte sobre seu dia.
Mark esticou o brao sobre o encosto do sof, abrangendo os ombros de Kim. A barba ligeiramente crescida, acentuava a curva de seu queixo e o contorno dos lbios firmes.
	Consegui arrumar um emprego  anunciou ela.
	Conseguiu? Onde?
	Em outro restaurante. Mas no se preocupe, esse  decente.
Pensei muito durante toda a manh e resolvi prosseguir com meu intento de tirar o diploma de bab. E aqui mesmo, no Colorado.
Contudo, primeiro serei obrigada a pedir um favor.
Mark enrolou uma mecha dos cabelos dela no dedo.
	Qual?  indagou.
Por um momento Kim esqueceu o que ia falar, perdida na viso daqueles olhos azuis.
	Pensei se no poderamos fazer um acordo de modo que eu no tenha que me mudar ainda. Alm de cozinhar, tambm poderei limpar a casa. S at eu conseguir juntar dinheiro suficiente para me matricular na escola.
	Kim, eu ficaria muito satisfeito em lhe emprestar esse dinheiro.
	No. Quero fazer "isso por minha prpria conta.
	Pensei que fosse dizer isso. Por isso...  Mark traou os contornos do queixo dela com o dedo.
	O qu?
	Tambm arrumei um emprego para voc  ele completou.
	Voc o qu?!
	Pensei sobre seus planos e cheguei  concluso de que voc est perdendo tempo trabalhando em restaurantes e escritrios. Esses empregos no tm nada a ver com a profisso de bab. O que voc precisa  entrar nesse ramo desde j. O futuro  agora, meu anjo.
Kim sentiu um frio no estmago.
	O que voc fez?
Ele sorriu com um brilho de entusiasmo iluminando o olhar.
	Quando estava no escritrio, tomei a liberdade de fazer alguns contatos e acabei encontrando um emprego adequado para voc.
	Quer dizer...?
	Sim, de bab. O casal quer primeiro conversar com voc, claro, mas depois das referncias que dei a eles, ser uma moleza.
	Quem so essas pessoas?
	Um casal de amigos meus. Paul e Chrissie Mitchell. Eles tm dois filhos, um menino e uma menina.  Ele estreitou o olhar.  Qual o problema, Kim? Parece apreensiva.
	Como farei para obter o diploma?  questionou ela.
	Se ele significa tanto para voc...
	Significa, sim.
	Ento siga em frente. Economize o dinheiro que os Mitchell iro lhe pagar e faa o curso. Ter a teoria e a prtica ao mesmo tempo. O que acha?
Kim levou as mos ao rosto, rindo de puro nervosismo.
	 meio assustador, entende? Bom demais para ser verdade.
	No se preocupe. Sei que dar conta do recado.
Mark levou a mo s costas dela e puxou-a para si, abraando-a com carinho, demonstrando seu apoio. Sentindo o calor daquele corpo junto de si, Kim concluiu que era impossvel ter medo de alguma coisa. Com Mark a seu lado, estava protegida. Ele prosseguiu:
	Ficar encantada com a casa deles;  enorme. Ter uma sute s para voc.
Kim empertigou-se.
	Terei que morar com eles?
	Claro. No faz parte da profisso?
	Nao necessariamente. ALgumas babs trabalham apenas uma parte do dia.
	Bem, Ghrissie deixou claro que quer uma bab por perodo integral.
Kim abaixou a vista. A ideia de se afastar de Mark no lhe agradava nem um pouco. Como conseguiria viver longe dele? Ele notou o que a: preocupava e tentou tranquiliz-la:
	S estar a alguns quarteires de distncia, meu anjo. Se precisar de algo, estarei aqui.   
	 Obrigada  Kim agradeceu com voz trmula. - Obrigada por tudo: sua hospitalidade, as roupas novas, a, viagem...
Mark segurou o rosto dela entre as mos. Os olhos profundamente azuis perscrutavam cada detalhe do semblante de Kim.
	Obrigado por haver me acompanhado - foi a vez dele agradecer.
Emocionada, Kim tambm levou as mos ao rosto de Mark. Deus, como o amava! No queria que isso tivesse acontecido, e sabia que ele ficaria chocado se soubesse.
	Mark?
Sua voz refletiu medo e confuso. Mark inclinou a cabea devagar, at que seus lbios tocassem os dela. O beijo foi terno, doce, justamente o que Kim precisava nesse momento decisivo de sua vida.
	Estamos em uma situao muito difcil  ela sussurrou com os lbios prximos aos dele.
	Sim.
	Prometemos que no faramos mais isso.
	Eu sei.
No instante seguinte, renderam-se a um beijo mais profundo e intenso do que Kim jamais poderia imaginar. Agarrou-se a Mark com a nsia de uma pessoa que passara a vida inteira sem receber carinho de ningum. A consequncia foi uma chama de desejo crescendo dentro de si, algo que no tinha nada a ver com sua vida passada ou futura.
Percebeu que Mark deitava sobre ela no sof, mas no ligou. S o que queria era t-lo, senti-lo. Ouviu-o gemer quando ela abriu mais os lbios para receber a lngua quente, mida.
	Kim, est me deixando louco.
Encantada por conseguir provocar tal desejo em um homem viril como Mark, ela sorriu, fitando-o nos olhos.
	Oh, Deus, no faa isso  ele pediu.
	O qu?
	Sorrir. No consigo...  beijou-a repetidamente  ...resistir ao seu sorriso.
Rolaram para o cho. Deitada sobre Mark, Kim teve a clara impresso de que ele batera o cotovelo na mesinha de centro.
	Era s o que voc precisava: um cotovelo quebrado  ela riu.
Mark tambm riu, os lbios bem prximos aos dela.
	No  exatamente com essa parte do corpo que estou preocupado no momento.
Kim sentiu o rosto em chamas.
	Desculpe  disse ele.  No quis embara-la.
Entrelaou os dedos pelos cabelos dela, afastando-os do rosto delicado.
Kim rolou para o lado, deitando ao lado dele.
	Eu  que devo me desculpar  respondeu.  No sou muito...  olhou para o teto  ...experiente nesse assunto.
Mark apoiou-se em um cotovelo, fitando-a de frente.
	Sobre quanto de experincia estamos falando?
- Nenhuma  ela asseverou, sem encar-lo.
	E isso a embaraa?
	Bem, para ser sincera, sim. Vi as mulheres com as quais voc j saiu. Posso imaginar ao que est acostumado.
Mark riu.
	Pelo visto, no.  Acariciou a perna dela enquanto falava:
	Anjo, em uma escala de um a dez, onde dez significa as mulheres mais desejveis com as quais j sa, voc se encaixa na casa dos noventa e dois, mais ou menos.
Kim ergueu a cabea, querendo rir de puro contentamento.
	E isso diz respeito apenas ao seu beijo  Mark acrescentou.
	No consigo nem imaginar quanto a fazer amor...
O brilho divertido que havia nos olhos de Kim, transformou-sc em puro desejo. Com aquelas palavras ecoando no ar, beijaram-se mais uma vez.
Quando Mark finalmente se afastou, ela abriu os olhos devagar e sorriu. S que ele tornara-se srio.
	Oh, Kim. Entende agora por que no podemos mais morar sob o mesmo teto?
Dizendo isso, ficou de p e se afastou. Ainda no cho, Kim sentiu-se sozinha e abandonada.
	No, no entendo!  exclamou.
Mark passou as mos pelos cabelos desalinhados.
	Kim, esse... esse relacionamento no est certo. Eu deveria estar ajudando-a, e no tirando proveito da situao!
	No consigo ver como possa estar tirando proveito se eu tambm...
	 justamente isso. Voc no consegue enxergar.
	Enxergar o qu?
	Que voc  uma pessoa muito vulnervel nesse ponto, Kim.
Nunca recebeu carinho das pessoas que amava e agora aqui estou eu, provavelmente preenchendo todas suas carncias emocionais:
pai, me, amigo, amante...
Kim empertigou-se.
	Isso no  verdade!
	Com o tempo voc ver que . Suas emoes esto muito confusas, para que consiga perceber isso agora.
	Aposto que no mais do que as suas, Mark! Pelo menos reconheo atrao fsica entre um homem e uma mulher!
	Sim, no nego que me sinto atrado por voc. Mas isso  uma consequncia de voc ser uma mulher desejvel e de estarmos morando na mesma casa.
Kim no podia acreditar. Mark estava dizendo que no levava a srio o que sentia por ela! Tratava-se apenas de uma resposta masculina automtica!
	Claro. Tem toda razo  respondeu ela, engolindo a mgoa mais uma vez.
	Precisamos nos afastar, Kim.
A dor que ela sentia aumentou ainda mais. Mark no a queria afastada apenas de sua casa, mas tambm de sua vida.
Duas noites depois, Mark sentou  mesa do escritrio. Cruzou as mos na nuca, consciente do silncio que reinava na casa. Kim mudara-se pela manh, quando ele estava na empresa. "Melhor que tenha sido assim", pensou consigo.
Havia acabado de tomar uma aspirina para sua dor de cabea, quando o telefone comeou a tocar.
	Al?
	Ol, Mark.
	Bob? Como est?
Bob contou que no dia anterior visitara o casal que estava morando na casa que pertencera a Miriam. Descobrira que ela deixara para trs vrias caixas. Sem saber o que poderiam conter, o casal acabara abrindo-as.
	No foi preciso usar de muito raciocnio para descobrir que as coisas pertenciam  garota  Bob explicou.  Est tudo aqui comigo. Quer que eu lhe envie?
	Sim, por favor. Kim ficar contente em receb-las.
	H todos os tipos de objetos  Bob continuou , roupas, bonecas velhas, dirios...
Mark notou que o amigo enfatizara a palavra de propsito.
	Ok, j entendi  respondeu.  O que encontrou nesses dirios?
	A me dela fugiu quando ela estava com trs anos.
	Grande novidade  Mark ironizou.
	Ok. E quanto a essa: por acaso sabe que ela comeou a trabalhar aos onze anos?
	No  Mark apoiou os cotovelos na mesa, interessado.
	E que quando ela estava com doze foi agredida por um bando de crianas que roubaram o dinheiro que ela havia recebido?
	E onde diabos estava o pai dela nessas ocasies?  Mark impacientou-se.
	Geralmente em um bar, chamado Sandy's. Hei, a menina tambm marcou noventa pontos em uma prova oral de cem perguntas, no exame final do colgio.
Mark cerrou o punho, indignado por nunca haverem investido no potencial de Kim.
	Est claro que ela queria ter continuado a estudar  Bob prosseguiu.  Desculpe a sinceridade, amigo, mas sua irm agiu como uma verdadeira megera. No que a garota tenha escrito isso explicitamente nos dirios, todavia, consegui notar nas entrelinhas. Sua irm achava que escola era pura perda de tempo.
Forou a menina a parar os estudos para que ela apenas trabalhasse.
	Ok, Bob  Mark ficou de p. J ouvira o suficiente. Envie as caixas para c.
Est bem. S mais um detalhe: sua irm est na Flrida. Quer o endereo dela?
	Claro!  Mark pegou uma caneta e anotou o endereo.
 Como conseguiu encontr-la?
	Fcil. Ela pediu ao casal que enviasse o restante do pagamento da casa para um endereo na Flrida. A propsito, se um homem atender, trata-se do novo marido dela.
Mark fechou os olhos. No, no podia se zangar. Miriam fazia besteiras todo o tempo. J estava acostumado.
Todavia, no conseguia deixar de sentir raiva. Droga, estava furioso! Miriam no pensava em ningum, a no ser ela mesma!
	Bob, oua. Tenho mais um servio para voc. Acha que pode encontrar a verdadeira me de Kim?
	Hei, no vai ser nada fcil.
	No importa quanto tempo leve ou o dinheiro que tenha de gastar.
	Est bem. Vou tentar.
Mark desligou, sentindo-se um pouco mais aliviado. Encontrar a verdadeira me de Kim, livraria-o de maiores responsabilidades.

CAPITULO X

Mitchell eram um casal na casa dos trinta anos. Paul era dono de uma corretora e Chrissie gostava de ficar em casa, cuidando dos afazeres domsticos. Aps uma semana de convivncia, Kim j se dava muito bem com os dois.
Tambm adorava as crianas. A pequena Bethany, com um ano de idade, tinha uma averso especial pela troca de fraldas, mas fora isso era um beb adorvel. Jason, com quatro anos, era f dos super-heris da tev; possua todos os brinquedos e roupas que os acompanhavam.
Kim no poderia estar num lugar melhor. Adorava as crianas e os patres. Tinha um quarto enorme e confortvel s para si. Quartas e domingos de folga e um timo salrio. Era tudo que ela esperava alcanar, e nem tirara o diploma ainda!
Ento, por que no se sentia completamente feliz?, pensou no fim da terceira semana.
	Isso no faz sentido!  Kim protestou quando o Mercedes dos Mitchell parou diante do restaurante chamado Golden Bee.
	Contratar uma bab para levar a outra para jantar fora  loucura!
	No quando a bab permanente est fazendo aniversrio 	Paul replicou.
	Alm do mais, no saiu para lugar algum desde que est conosco  Chrissie acrescentou.
O restaurante estava cheio e tiveram que esperar por uma mesa. Algum tempo depois, Kim espantou-se ao ver Mark e Suzanne se juntarem a eles. Ficara to distrada com a msica e agitao do ambiente que nem notara a chegada dos dois.
Mark a visitara somente duas vezes depois que ela se mudara. Uma para contar que Miriam havia casado de novo e outra para entregar as caixas que ela deixara com seus pertences no Brooklyn. A cada vez, tivera a impresso de que Mark erguia mais uma barreira entre eles.
	Como vai, Kimberly?
Kimberly. A distncia tomara-se maior.
	Estou bem  respondeu, evasiva.  Ol, Suzanne.
A outra agarrou-se ao brao de Mark e sorriu de uma maneira que queria dizer: "Eu venci! Eu venci!". Talvez ela tivesse mesmo razo, pensou Kim.
	Tambm convidamos Mark para a comemorao, j que o aniversrio dele  na prxima tera-feira  Paul explicou. Celebraremos as duas datas de uma vez.
	Oh, que bom  Kim forou um sorriso, imaginando como a noite seria difcil.
O mattre finalmente apareceu, indicando uma mesa vazia. Sentaram-se todos. Paul com Chrissie. Mark com Suzanne. E Kim.
Pediram um jantar leve. Conversaram e riram muito. Por fim, um garom apareceu com um belssimo bolo confeitado, enfeitado com duas velas.
O pianista comeou a tocar Parabns a voc e o restante das pessoas que jantavam se uniram ao coro.
	Agora cada um faz um pedido antes de apagar as velas  Chrissie lembrou ao final da msica.
Sentados de frente um para o outro, Mark e Kim entreolharam-se, inclinando-se para a frente. A ironia da situao chegava a ser quase palpvel. Kim sabia bem qual era seu maior desejo, assim como tinha conscincia de que este nunca se realizaria.
A fumaa das velas ainda se espiralava no ar quando ela pediu licena e se encaminhou ao banheiro. Teve receio de no conseguir segurar as lgrimas por mais tempo.
	Kimberly?
Parou no meio do caminho, ao ouvir algum chamar seu nome.
	Kim, h algo errado?
Ela virou devagar, forando um sorriso.
	No. Por que deveria haver?
Mark olhou-a de modo incrdulo.
	Bem, est mais que evidente que voc no est feliz.
	E que importncia tem isso para voc?  Seu tom foi de queixa, e no de irritao, como ela pretendia.
	Vem c  Mark segurou-a pela mo e puxou-a para um canto.
	Hei! O que est fazendo?  protestou ela.
	Tentando encontrar um lugar onde possamos conversar.
Aqui est melhor.
Encostou-a contra uma parede e apoiou as mos na altura da cabea dela. O gesto criou uma atmosfera de intimidade para a qual Kim no estava preparada.
	E ento, o que h de errado?  ele insistiu.
	Nada. Oua, Mark, combinamos que cada um seguiria seu caminho. No precisa mais se preocupar comigo.
Ela tentou se desvencilhar, mas Mark a manteve no mesmo lugar.
	No estou preocupado. S quero saber o que h de errado com voc. No est gostando de trabalhar para os Mitchell?
	Claro que estou. Eles so muito gentis. Tudo est perfeito.
Kim desejou que ele parasse de fit-la nos olhos daquela maneira.
	Se estiver infeliz, quero que me diga. Afinal, fui eu quem lhe conseguiu o emprego. Sinto-me responsvel.
Kim ia protestar mais uma vez, mas se deu conta de que seria intil. Mark parecia ter o poder de ler seus pensamentos.
	Sonhava em ser bab desde os quinze anos de idade, mas acho que no estou querendo encarar a realidade  confessou.
	Que realidade?
Ela respirou fundo.
	A de que no tenho mais quinze anos. Naquela poca, as duas moas que vi empurrando carrinhos pareceram princesas para mim. Eu no tinha experincia de vida. S agora me dou conta de que no  exatamente o que pensei. No ... suficiente.
	Ok, desfez um sonho que construiu aos quinze anos. O que h de errado nisso?
	Mark, estou agindo como uma ingrata, que no sabe aproveitar as oportunidades que aparecem na vida!
	No. Apenas est agindo com conscincia, admitindo que tentou se adaptar ao trabalho, mas no conseguiu.
Kim continuou olhando-o, sem entender. Mark era mesmo imprevisvel.
	Mas Mark, isso me deixa sem planos ou expectativas para o futuro!
	Pelo contrrio, talvez seu mundo esteja prestes a se abrir, Kim.
   Como assim?
	J considerou a ideia de canalizar esse seu interesse por crianas em um curso especfico de faculdade?
	Mark, fale srio!
	Anjo, nunca falei to srio em toda minha vida.
O corao de Kim se acelerou. No esperava mais ser chamada de "anjo" por ele.
	Mas eu nunca... O que eu faria com um diploma de faculdade?
	Sei l  ele respondeu.  Poderia tornar-se professora, psicloga infantil, pediatra, o que quisesse. Pense bem nisso.
	Obrigada, Mark  ela sorriu, agradecida.  Prometo pensar.
Dizendo isso, fez meno de se juntar aos outros.
	Antes que volte para a mesa...  Mark segurou-lhe o brao  ...quero lhe desejar um feliz aniversrio, anjo.
	Feliz aniversrio para voc tambm.
	Gostaria de ter lhe comprado um presente.

	No seria preciso. J me deu um grande presente, Mark.
Ele franziu o cenho.
	Quando?

	Agora mesmo, quando me sugeriu a faculdade. No pode imaginar o que isso fez ao meu ego. Nunca algum depositou tanta confiana em mim, sugerindo que tenho capacidade para seguir a carreira que desejar.
	Oh, Kim...
	Mark?
Kim se assustou ao ouvir a voz de Suzanne. Mark afastou-se, tambm surpreso.
	O que esto fazendo aqui?  Nenhum dos dois respondeu.
O rosto de Suzanne tornou-se mais srio.  O bolo ainda no foi cortado  disse, seca.
	Kim e eu discutamos um problema de famlia  Mark explicou.  Vamos logo cortar o bolo  anunciou, pegando o brao de Suzanne. Voltou-se para Kim:  Vamos, Kimberly?
Kim assentiu e os acompanhou. Pelo visto, nunca aprenderia
que aquilo que parecia ser carinho e ateno por parte de Mark no passava de iluso.
Na tera-feira  noite, Mark resolveu ficar sozinho, mesmo sendo o dia de seu prprio aniversrio. Preparou um prato congelado no microondas e sentou-se  mesa, pronto para saborear um jantar na mais completa solido.
Provou a primeira garfada e fez uma careta ao queimar a lngua. "Droga!", pensou bebendo um gole de gua. Como sentia falta da comida de Kim!
Involuntariamente, seus pensamentos voltaram-se para a noite do sbado anterior, quando haviam comemorado seu aniversrio e o de Kim no Golden Bee. Talvez ela receasse a ideia de fazer faculdade, agora que estava segura na casa dos Mitchell. Ele compreendia. Todavia, seria um grande desperdcio se Kim deixasse de lado a chance de se formar.
Mesmo que ela aceitasse, teria que continuar trabalhando para pagar os estudos. No era justo, ainda mais no sendo necessrio.
"Talvez seja melhor ligar para Miriam", pensou entre uma garfada e outra. Mas ser que sua irm daria importncia? Ele duvidava. Depois do que ela fizera para se livrar de Kim, era bem pouco provvel que se importasse com o fato da enteada querer ou no fazer uma faculdade.
Ainda assim, seus olhos voltaram-se para o telefone. No falava com Miriam desde que ela se mudara para a Flrida. No saberia o que dizer. Ou talvez soubesse e estivesse com receio de faz-lo. Afinal, Miriam era sua irm, e a ideia de entrar em atrito com ela no lhe soava bem.
Ainda olhava para o telefone quando ele comeou a tocar, assustando-o.
	Al?
	Mark? Aqui  Bob. H alguma cadeira a por perto?,Ser melhor ouvir a notcia sentado.
	O que foi, Bob?  respondeu Mark, acostumado aos exageros do amigo.
	Passei as trs ltimas semanas procurando aquela mulher que voc me pediu para localizar. A me da garota, lembra?
	Sim. Conseguiu encontr-la?  Mark indagou, ansioso.
	Sim.
Onde, pelo amor de Deus!
Bob riu.
	Em Queens.
	Queens?
	Exatamente. Acredita nisso? Ela estava a apenas alguns quilmetros da filha e durante todos esses anos nem se deu ao trabalho de ir visit-la.
Mark apertou o telefone.
	Acha que adianta alguma coisa se eu entrar em contato com ela?  inquiriu.
	Receio que no, meu amigo.
Mark franziu o cenho.
	Ela no quer falar com Kim?
	No exatamente. Ela morreu, Mark. H dois anos.
	Oh.
Mark encostou-se na parede, fechando os olhos. Teria de contar a Kim, e mesmo no havendo nenhum lao emocional entre ela e a me, suspeitou que Kim ficaria muito magoada.
	Obrigado, mesmo assim, Bob. No deve ter sido um trabalho fcil.
	Saber quando receber a conta  o outro brincou. Em seguida, voltou a ficar srio:  Mark, h mais uma notcia que preciso lhe dar. Quando comecei a procurar Lisa - esse  o nome da me da garota -, considerei a possibilidade de que ela tivesse voltado a usar o sobrenome de solteira, s que eu no sabia qual era ele. Tambm havia a possibilidade de ela ter se casado novamente. Por isso, investiguei alguns registros. Comecei com o do casamento e de l passei ao de nascimento. Bem, para encurtar a histria, houve um documento que no consegui encontrar. E olha que eu procurei um bocado! Mas a verdade  que ele no
existe.
A boca de Mark tornara-se seca. Tomou um gole de gua antes de falar:
	E que documento  esse, Bob?
	O que declara o divrcio entre Lisa e o pai da garota.
Mark voltou a fechar os olhos. Aquilo s podia ser um pesadelo.
Logo iria acordar.
	Na verdade, no houve o divrcio, Mark  Bob continuou.
 Isso significa que quando ele e sua irm se casaram....
	Sei o que significa.
Mark puxou uma cadeira e sentou. Se Miriam no se casara realmente com Cliff e ele no se divorciara da primeira esposa, j falecida, a maioria ou mesmo todos os bens de Cliff passariam legalmente para as mos de Kim.
	Sei que  uma situao complicada, Mark. Se quiser, esse assunto no ir alm dessa conversa telefnica. Afinal, trata-se de sua irm. J fiz minha parte e se desejar que eu esquea essa histria, para mim est bem. Porm, se no quiser...
	O que est tentando dizer, Bob?
Houve um momento de silncio.
	Que a deciso final est nas suas mos, meu amigo.
Era justamente isso que Mark mais temia.

CAPITULO XI

Kim lia um catlogo de cursos universitrios sen-aada na borda do tanque de areia, onde as crianas brincavam. De sbito, ouviu o porto se abrir.
	Suzanne!  exclamou, fechando o catlogo rapidamente.
 Veio visitar Chrissie? Ela foi ao cabeleireiro, mas...
	No. Na verdade, vim falar com voc mesma.
	Comigo?  Kim surpreendeu-se.
Suzanne aproximou-se, removendo um brinquedo do caminho.
	Sente-se, por gentileza  Kim convidou-a, indicando uma cadeira do jardim.  O que deseja?
Suzanne sentou-se com sua costumeira elegncia.
	Mark ligou para voc essa semana?
	Mark?  Kim inclinou-se de lado, ajudando Jason a virar um molde de plstico cheio de areia.  No, ele no ligou.
	Droga!
Kim olhou-a no mesmo instante.
	Qual o problema, Suzanne?
	Ento no est sabendo sobre a promoo?
O corao de Kim se acelerou.
	No  respondeu.  Ela finalmente aconteceu?
	Oh, sim, aconteceu.
	No parece muito satisfeita, Suzanne. H algo errado?
	Digamos que sim. Mark foi passado para trs.
	O q-qu?
	Stu Zambroski foi promovido no lugar dele.
	Zambroski?!  Kim levantou, impaciente.  Como pu deram fazer isso com Mark? Ele  o advogado mais esforado e talentoso da empresa, todos dizem isso! Nunca encontraro algum mais eficiente que ele.
 Concordo plenamente.
Kim notou ira no semblante de Suzanne. Logo percebeu que aquela raiva no era contra os trs scios que haviam desconsiderado Mark; Suzanne estava com raiva dela!
	Est satisfeita agora?  arguiu Suzanne.
	Acha que estou contente porque Mark no conseguiu a promoo?
	Est mais que evidente que no fez nada para ajud-lo  Suzanne replicou.  Desde que chegou, transformou a vida de Mark em um verdadeiro inferno!
	Suponho que esteja se referindo  discusso que ele teve com Milton Barnes, no dia da festa? - Suzanne lanou-lhe um olhar acusador, mas Kim prosseguiu:  Milton estava me aborrecendo. Se Mark no conseguiu que ele se tornasse cliente da empresa, foi porque preferiu ser um cavalheiro e me defender.
Enquanto falava, no fundo Kim sabia que Suzanne tinha razo. Se ela no estivesse na festa, Mark no teria discutido com Milton.
	O incidente com Milton Barnes  apenas a ponta do iceberg  Suzanne contraps.  Por acaso tem ideia das consequncias que aquela sua priso causou para Mark?
Kim empertigou-se.
	Com certeza minha priso no teve nada a ver com a deciso os scios da empresa  argumentou.  Mark apenas demonstrou seu lado cavalheiresco mais uma vez indo me ajudar em um momento difcil, s isso.
O olhar de Suzanne faiscava de fria.
	 exatamente este o problema! Quando o assunto diz respeito a voc, Mark perde a noo do que  melhor ou pior para ele.  Ela riu, sardnica.  Como conseguiu que um homem sensato como Mark cometesse a tolice de sair do escritrio no meio do dia, hein? Sussurra comandos auto-destrutivos ao ouvido dele, quando ele est dormindo? Ou  apenas boa demais na cama?
Kim abriu a boca, estupefata.
	Pensou que no sabamos nada a esse respeito?  Suzanne indagou.
	A-a respeito de qu?  Kim balbuciou.
	Sabemos que viajou com Mark naquele fim-de-semana.
Suzanne, acha que Mark deixou o escritrio naquele dia porque havamos programado uma viagem romntica e no vamos a hora de partir? Deus, todos esto pensando isso? Pois esto completamente enganados! No programamos a viagem com antecedncia. Alm disso, no houve nada entre mim e Mark Kim engoliu seco, sabendo que no dissera exatamente a verdade. 
 Mas mesmo se houvesse acontecido, estamos na dcada de noventa; quem se importa com o que um homem faz fora do trabalho?
Suzanne tambm ficou de p.
	Meu pai se importa  retrucou ela.  Ainda mais quando o homem em questo est envolvido com a filha dele! Aquela viagem sbita fez meu pai refletir melhor sobre a fidelidade de Mark para comigo e, consequentemente, para com a empresa.
A pequena Bethany comeou a chorar. Kim pegou-a no colo. A verdade comeara a surgir: Mark perdera a promoo pela qual lutara durante tanto tempo, e ela era a nica culpada.
	E... como ele est?  arriscou perguntar a Suzanne.
	Para ser sincera, no sei. Mas imagino que no esteja nada bem. Pediu demisso.
	O qu?!
	Pediu demisso! O que mais poderia ele fazer, depois deter sido humilhado diante dos colegas?  Suzanne pronunciava cada palavra como uma acusao.
	Mas isso no  justo! Mark merecia a promoo!
	No me venha falar de justia!  Suzanne bradou.  Tem ideia do que isso causou ao nosso futuro? Um dia, Mark e eu seramos donos da empresa!
Kim conteve a respirao.
	Como marido e mulher?  inquiriu.
	Provavelmente.
	E Mark sabia disso?
	Aposto at que ele estava dois passos  minha frente respondeu Suzanne.  Mark  um homem muito ambicioso. Pelo menos costumava ser. Porm, desde que voc apareceu ele est muito confuso. Perdeu o interesse pela empresa, pelos amigos, a carreira... tudo que ele mais prezava antes.
Kim mal podia respirar. Teria mesmo uma influncia to negativa na vida de Mark?
	No sei o que ele far agora  Suzanne acrescentou. Nem ele mesmo deve saber. Passei na casa dele antes de vir para c. A faxineira disse que ele havia sado, mas que ela no sabia para onde. Por isso vim at aqui; imaginei que voc soubesse. Kim deu de ombros.
	Talvez ele tenha ido a algum lugar sossegado, pensar um pouco.  Virou de costas para que Suzanne no visse o brilho em seu olhar.  Tenho certeza que ele est bem.
	Bem, quando ele voltar farei o que puder para que volte para a empresa. Enquanto isso, faa um favor a Mark, Kim: deixe-o em paz. Disse-lhe que fizesse isso h algumas semanas, mas voc no me deu ouvidos. Veja agora as consequncias. Por isso estou lhe pedindo mais uma vez, fique fora da vida de Mark, ok?
	Farei o que for melhor para ele  foi a resposta de Kim.
	timo. Ainda bem que conseguimos nos entender.
Dizendo isso, Suzanne saiu, fechando o porto atrs de si.
Trs dias depois, Kim estava de volta a Nova York e Colorado Springs tornara-se apenas uma lembrana.
Partir fora mais difcil do que ela imaginara. Aprendera a gostar da cidade. Todavia, recusava-se a atrapalhar a vida de Mark. Embora no a amasse, Kim sabia que ele sentia-se responsvel por ela, devido ao lao familiar, ainda que indireto.
Os Mitchell haviam sido muito compreensivos, levando-se em conta a maneira sbita como ela dera a notcia. Ligara para Charlotte e acertara ficar com ela at que conseguisse alugar um apartamento para ficar. Rapidez fora sua meta principal. Partira antes que se deparasse com Mark, pois sabia que se isso acontecesse, seus planos de sair da vida dele iriam por gua abaixo.
Agora ali estava ela, bocejando  mesa de Charlotte enquanto tomava o desjejum. J fizera aquilo muitas vezes, mas estava longe de ser a mesma Kim de antes. At mesmo Charlotte notara a mudana quando a encontrara no aeroporto, na noite anterior.
	Ficar bem enquanto eu estiver no trabalho?  Charlotte Perguntou, tomando o ltimo gole de caf.
	Claro. Pode ir sossegada. Tenho mil coisas a fazer hoje.
Charlotte ficou de p.
	Tem certeza de que no quer voltar para seu antigo emprego, ' no escritrio? Sua substituta  a incompetncia em pessoa!
Kim riu.
No, obrigada. Tenho algumas outras providncias a tomar primeiro.
	Ok. Estarei de volta s cinco, ento.  Olhou Kim com carinho. ;  bom t-la de volta, minha amiga.
	 bom estar de volta  Kim sorriu.
Kim passou o dia preenchendo fichas de emprego. Ao descer do nibus,  tarde, sentia-se exausta. Esquecera-se de como a agitao da cidade cansava mais que o normal, devido  poluio e ao barulho.
Tentou sentir-se feliz enquanto caminhava pela calada. Devia estar orgulhosa de si mesma, aps haver preenchido oito fichas de emprego em apenas um dia. Entretanto, no conseguia deixar de ignorar o vazio dentro de si.
Percorreu o caminho mais longo at a casa de Charlotte, esperando que a caminhada eliminasse a nuvem de tristeza que parecia pairar sobre sua cabea.
Seus ps ardiam quando finalmente chegou  rua da casa de Charlotte. Quando estava a certa distncia, parou de repente. Algum incrivelmente familiar estava sentado nos degraus de en-J trada. Kim segurou-se no porto de uma casa, lutando para man-ter-se de p. No podia ser ele. No podia.
Sentado com a cabea apoiada nas mos, parecia sentir o peso do mundo em suas costas. Porm, quando Kim encurtou a distncia que os separava, ele levantou a cabea. Quando o viu, teve certeza de que nada mais seria impossvel novamente.

CAPTULO XII

A voz de Kim saiu trmula, incrdula. Ele levantou devagar. O choque emocional deixou-a atnita, sem saber o que fazer. Mark aproximou-se com um leve sorriso nos lbios. Parou diante dela, polegares enfiados nos bolsos da cala. Deu uma olhada em volta antes de dizer:
	Ento esse  o Brooklyn?
	Sei que essa  uma pergunta idiota, mas o que est fazendo aqui?  questionou ela.
	Acreditaria se eu dissesse que estava pela vizinhana?  a verdade. Ou quase.
Kim no conseguia tirar os olhos dele. Estava ainda mais bonito que antes, embora houvesse uma sombra de tristeza em seu olhar. Sua vontade era toc-lo; certificar-se de que ele era real.
	E o que voc est fazendo aqui?  foi a vez de ele perguntar.
	Moro aqui, lembra?
	Pelo que sei no era bem aqui que estava morando da ltima vez em que a vi  Mark tomou-se srio.
	Sim, bem...  ela titubeou  ...resolvi voltar para Nova York.
	Paul me contou. Liguei para l hoje, na esperana de falar com voc. Quase ca de costas quando soube que voc tambm estava aqui. Houve algum motivo especial para essa mudana?
Kim deu de ombros, evasiva.
	Aqui  minha casa.
	Partiu sem ao menos pensar em se despedir de mim? Mark lamuriou-se.
	Pensei em ligar, mas... Oua, importaria-se de entrarmos?
Meus ps esto me matando.
	Nem um pouco. Temos muito a discutir e prefiro que no sejamos observados ou interrompidos.  Olhou para o relgio.
	Venha comigo, Kim.
	Para onde?
	Tomar um refresco, jantar... Estou em um hotel em Manhattan. Podemos ir rjara l.  Notando a hesitao dela, insistiu:
	Por favor, Kim.  importante.
	Quer que eu chame um txi?  perguntou a ele.
	No  necessrio. Estou com um carro alugado.
S ento Kim avistou o sedan estacionado do outro lado da rua. Suspirou, resignada.
	Est bem. Vamos.
Quando chegaram ao hotel onde Mark estava hospedado, ele deixou o cano com um dos empregados encarregados do estacionamento e entrou com Kim, conduzindo-a em direo aos elevadores.
	Espere um pouco : protestou ela ao notar a inteno de Mark.  Disse que tomaramos um refresco ou jantaramos...
	Kimberly, s quero conversar, nada mais.
As portas se abriram e com a mo firme nas costas dela, impeliu-a a entrar no elevador.
Kim enrubesceu. Claro que ele s queria conversar.
O quarto de Mark era amplo e luxuoso, todo decorado em contrastes de claro e escuro. Duas grandes janelas davam vista para o Central Park.
	O que prefere beber?  ele indagou, abrindo a portinhola do bar.
	Um club soda est bom.
Pouco depois Mark entregou um copo a ela. Serviu-se de uma dose de usque e sentou no sof.
	No sei por onde comear  confessou, franzindo o cenho.
Kim continuou de p. Percebeu a relutncia estampada no rosto de Mark.
	Se isso tem alguma coisa a ver com o fato de Stu Zambroski haver obtido a promoo no seu lugar, nem precisa falar. J sei da notcia. Tambm sei que voc pediu demisso da empresa depois disso.
Mark fitou-a, confuso.
	Promoo? Eu nem estava pensando nisso! Mas j que trouxe o assunto  tona... Sente-se. Est me deixando nervoso, parada a em p.
Kim sentou diante dele, colocando o copo sobre a mesinha.
	Nem estava pensando?  repetiu.  Mark, no est aborrecido?
	E por que eu deveria estar?
	Bem, porque... estraguei sua vida. Monopolizei seu tempo, e... fiz voc perder a promoo.
	Oh. Ento tudo isso aconteceu por sua culpa?  ele riu, irnico.
	Mark, como pode rir de uma coisa dessas? Era seu emprego!
Sua carreira!
	No, anjo. Era apenas um sonho que se revelou vazio.
Voc sabe bem o que  isso  salientou com um sorriso estonteante.  Quando eu era mais jovem, ter segurana financeira era a coisa mais importante do mundo para mim. Contudo, por ironia, isso s fez com que eu me tornasse um sujeito inseguro todo o tempo.  Hesitou antes de acrescentar:  O mesmo aconteceu com Miriam. Por isso, fui estudar advocacia.
Quando me formei, quis trabalhar em uma das empresas mais bem-conceituadas da cidade. Convenci-me de que meu interesse baseava-se apenas em razes idealsticas - justia e ordem social, esse tipo de coisa -, mas, no fundo, meu interesse no era assim to nobre. Minha ambio era tornar-me scio, ou mesmo dono, da empresa para a qual eu trabalhasse como uma ltima afirmao de meu sucesso financeiro e social.  Ele inclinou-se para a frente:  S que no demorou muito para a insatisfao aparecer.
	Insatisfeito? Voc?
	Sim. Cada vez mais, passei a me dar conta de que eu era uma pessoa capaz, realmente til para a empresa. Tambm tomei conscincia de que sou uma pessoa que no gosta de
receber ordens de outros. Gosto de ter controle sobre meus prprios negcios, lutar por meus objetivos e isso no tinha nada a ver com o que eu estava fazendo. Mais cedo ou mais  tarde, nossos valores e ideais acabam nos cobrando uma tomada de posio, Kim. Ela sorriu, 	Tenho a impresso de que esto sempre cobrando.
Mark deu de ombros.
	Talvez. S o que sei  que ultimamente algumas das metas que eu esperava realizar tornaram-se verdadeiras batalhas de conscincia para mim.
	Como conquistar a confiana de Milton Bames?
	Hum-hum. No  esse o tipo de vida que quero, Kim.
	Por isso pediu demisso?
Ele balanou a cabea que sim.
	No sa porque promoveram Zambroski em meu lugar.
Eu j havia tomado essa deciso antes de eles anunciarem a promoo.
O estmago de Kim contorceu-se. Ento Suzanne a fizera sentir-se culpada  toa. Teria sido uma inteno deliberada?
	Acha que eles acabariam lhe promovendo, se voc tivesse ficado?  perguntou a Mark.
	Sim, com certeza. Chegaram a me dizer isso quando fiz o pedido de demisso, na esperana de me manter na empresa.
Morrem de medo de me ter como concorrente.
	E  isso que pretende se tornar?
	Pretendo comear meu prprio negcio, se  a isso que se refere.
Kim sorriu, satisfeita. Mark tambm.
	Pelo visto, ambos decidimos comear uma nova etapa de nossas vidas  comentou ele.  E ento, pretende voltar a empurrar carrinhos de beb aqui em Nova York?
	Nfa verdade, no. Pensei melhor sobre o que voc me sugeriu sobre ai faculdade e resolvi dar uma chance a mim mesma.
	Qh, isso  maravilhoso, Kim!  Mark empolgou-se.
	Claro que demorarei a me formar, j que terei de trabalhar para sustentar a mim e os estudos.
Ficou de p e aproximou-se da janela. No estava mais conseguindo ficar ali, sentada diante de Mark, falando sobre o futuro. Sem ele, seu futuro lhe parecia uma mera sombra inexpressiva.
	Ainda no me disse o que est fazendo aqui  persistiu.
 Suzanne me disse que voc no estava em Colorado Springs. 
Ela no sabia que eu estava em Nova York. Suzanne e que no temos nos visto muito nos ltimos dias. Tenho estado aqui e na Flrida tambm  acrescentou ele.
	Flrida?
	Sim  respondeu ele, tomando um gole de usque.  Fui ver Miriam.
Kim sentiu as pernas fraquejarem e voltou a se sentar.
	C-como ela est?  gaguejou.
	Agora? No muito feliz.
	Aconteceu alguma coisa com ela?
Mark fitou-a nos olhos.
	Kim, pode ficar chocada com o que vou contar, mas, por favor, oua tudo primeiro. Na ltimo ms, mantive contato com aquele meu amigo que  detetive particular. Pedi a ele que investigasse alguns detalhes sobre... sobre seu passado.
Kim arregalou os olhos.
	Fale logo, Mark!  ela impacientou-se.
	Kim, seu pai e sua me nunca foram oficialmente divorciados.
	Tem certeza?

	Sim. Absoluta.
	E quanto a ele e Miriam?
	Foi bigamia.
Kim pegou o copo de Mark e tomou o restante do usque de um s gole.
Mark passou a contar toda a histria, incluindo o fato de que a me dela vivera bem prxima. Isso magoou-a mais do que saber que ela havia morrido h dois anos. O mais surpreendente, porm, foi saber que a herana de seu pai lhe pertencia por direito.
	Foi por isso que vim para c  Mark explicou.  Queria verificar a verdadeira existncia dos vrios documentos que nomeavam Miriam como herdeira de seu pai.
	Mas... o nome dela estava no testamento. Eu mesma vi.
Mark meneou a cabea.
No caso de bigamia, a lei anula automaticamente as clusulas do testamento e os bens tm que ser divididos. Com a morte de seu pai, pelo menos metade dos bens tornaram-se seus.
Se conseguirmos provar que Miriam o coagiu a passar a documentao para o nome dela, a outra metade da herana tambm ser sua, anjo.
Kim desviou o olhar.
	Estou muito, muito confusa.
Mark sorriu, compreensivo.
	No ser fcil desenrolar esse novelo, mas eu conseguirei, voc vai ver  assegurou-a.
	Encontrou-se com Miriam?
	Sim. Assim que verifiquei a veracidade dos fatos, fui para a Flrida e coloquei as provas diante dela.
Kim voltou a ficar de p e aproximou-se da janela mais uma vez. Permaneceu em silncio, temendo fazer a pergunta seguinte. Mark aproximou-se e ficou ao lado dela.
	Mark, acha que ela sabia que meu pai no era divorciado quando se casaram?
Mark pousou a mo no ombro dela e, num gesto automtico, Kim inclinou o rosto at toc-la.
	Ela sabia  ele respondeu.  Por isso ficou to aflita para mand-la embora depois que seu pai morreu. Teve receio de que voc ficasse em Nova York e acabasse descobrindo a verdade. Ficou mais apavorada ainda quando voc recorreu quele grupo de advogados.
	Mas eu no contei a Miriam!
	Ela descobriu mesmo assim. Voc esqueceu o telefone dele:
anotado na agenda ao lado do telefone.
Kim gemeu.
	Foi justamente naquela semana que ela apareceu com a histria de mudarmos para o Colorado  lembrou.
	Isso mesmo  Mark confirmou.  Entretanto, foi apenas um subterfgio para mant-la afastada da verdade.
	O que acontecer a ela agora?
Mark tomou a mo dela entre as suas, fazendo-a estremecer.
	Depende de voc, Kim. J comecei minha parte do trabalho, s o que preciso  de sua autorizao para continuar.
Kim viu-se num beco sem sada.
	Se formos em frente, tudo que foi deixado para Miriam passar para minhas mos?
	Sim. Finalmente poder ter e fazer o que quiser. Poder estudar sem ter que trabalhar para pagar os estudos. Ter a chance de se dedicar totalmente ao que escolher, ter uma vida social e at viajar de vez em quando, se quiser.
Kim respirou fundo. Retirou a mo que ele ainda segurava e abaixou a vista. Depois de algum tempo, voltou a encar-lo.
	Esquea, Mark. No quero o dinheiro. Posso me virar sozinha.
Ele segurou-a pelos ombros.
	Est maluca? O dinheiro  seu por direito, Kim!
	No quero possuir algo obtido dessa maneira triste. No  dinheiro ou bens materiais que nos pertencem por direito, mas sim os valores que carregamos conosco, Mark.
Ele soltou-a e passou as mos pelos cabelos.
	Droga, Kim. Enfrentei um monte de problemas para defend-la.
	Sim, eu sei.  Um sorriso insinuou-se nos lbios dela. E prezo seu esforo mais do que o resultado obtido. O que ainda no consigo entender  por que voc fez isso. O que o impeliu a ir contra sua prpria irm?
Sem hesitar, Mark segurou o rosto dela entre as mos, fitando-a nos olhos.
	Para mim, voc era mais importante, Kim. No podia suportar a ideia de ver algum magoando-a. Miriam praticamente roubou sete anos de sua vida. No era justo que ela lhe roubasse toda a vida.
	Mas Miriam tambm merece um descanso. Ela no teve uma vida fcil antes de se casar com meu pai.
	No acredite nisso. Fugiu da fazenda quando a situao ficou difcil, e em vez de ir estudar ou trabalhar, preferiu viver s custas dos homens com os quais se casava. Agora, por exemplo, ela  dona de uma enorme casa com vista para o mar, um belssimo carro do ano e est casada com um velho de setenta e dois anos, prestes a morrer de enfarte.
Kim olhou-o por um instante, imaginando como deveria estar sendo a nova vida de Miriam.
	Pensei que ela estivesse casada com Theodore.
	Theodore era pobre e, para ela, esse tipo de homem no interessa  Mark explicou, sarcstico.
	Bem, talvez eu e ela possamos entrar num acordo e dividir a herana  Kim conjecturou.  Mas no quero que voc se envolva. Tomar essa deciso contra sua irm deve ter sido muito difcil para voc, no quero lhe causar mais problemas. Os polegares de Mark tocaram os cantos dos lbios dela.
	J estou envolvido, Kim. E ficarei a seu lado, no importa o que acontea.
Os olhos de Kim ficaram marejados de lgrimas. Um soluo embargou sua garganta.
	Daqui para a frente seremos s ns, anjo  ele completou.
As lgrimas rolaram pelo rosto dela. Num impulso, abraou-o com fora.
	Oh, Mark, obrigada.
Afastou-se quase no mesmo instante, receosa pelo que a proximidade de Mark poderia lhe causar.
	E-ento so essas as novidades?  tentou sorrir para ele.
 Sinceramente, espero que sejam as nicas.
Mark estreitou o olhar, estudando a reao de Kim.
	Sim,  tudo  confirmou.  Estou feliz por voc, Kim.
Finalmente ter a chance que sempre mereceu. Poder ser dona de sua prpria vida.
Dizendo isso, voltou a olhar pela janela. Kim no entendeu o motivo, mas Mark parecia to desolado quanto ela. Num impulso, disse:
	Gostaria de voltar com voc, se.no se importar. Prefiro estudar no Colorado.
Ele no reagiu.
	Ento por que voltou para c?  perguntou, por fim.
	Eu... eu pensei que estivesse prejudicando-o. Cheguei  concluso de que Suzanne sabia o que era melhor para voc.
Agora vejo que estava enganada. Se... se ainda quiser algum que cozinhe para voc em troca de um quarto e estadia...
Mark voltou-se para ela.
	Kim, no me tente.
	No estou brincando. A menos que no me queira em sua casa.
	Se no a quero?  Mark suspirou e no segundo seguinte j a estreitava nos braos.  O problema  que a quero muito, anjo. E isso no  justo.
	No  justo? O que est querendo dizer?
Mark percorreu as mos pelas costas dela.
	Voc est apenas comeando a vida. No  justo que eu a prenda agora. Logo se cansaria de mim, do relacionamento.
Ela no pde conter o riso.
	Sabe de uma coisa, Mark Johnson? Voc  o homem de imaginao mais frtil que j conheci! O que o faz pensar que eu seria feliz longe de voc?
Dizendo isso, Kim ficou na ponta dos ps e beijou-o. Aos poucos a resistncia de Mark foi se esvaindo. No demorou muito para que ele movesse os lbios sobre os dela, num beijo cheio de paixo.
Quando finalmente se separaram, estavam ofegantes.
	Essa  uma situao difcil  disse Mark.
	A pior que j enfrentei  Kim anuiu.  Mas quero que saiba que no pretendo desistir. Nada faz sentido na minha vida, se voc no estiver ao meu lado.
Aos poucos um sorriso insinuou-se nos lbios de Mark.
	Tem certeza disso?
	Absoluta.
Ele abraou-a com fora, beijando-a com uma intensidade que provocou arrepios em Kim.
	Sendo assim, acho melhor ligar para sua amiga Charlotte, avisando-a de que no voltar para l hoje.
Kim fingiu um ar de completo espanto:
	 mesmo?
	Hum-hum  eie beijou-a mais uma vez.  Antes, porm, teremos que fazer algumas coisinhas que levaro algum tempo.
	O qu, por exemplo?  Kim provocou-o.
	Vejamos...  beijou-a na ponta do nariz.  Eu nunca disse o quanto a amo. Creio que terei que passar no mnimo uma hora lhe dizendo isso, para recuperar o tempo perdido.
Depois terei que pedi-la em casamento e voc ter que pensar na resposta...
Pegou-a no colo e levou-a para a cama. Deitou-a com cuidado e ficou observando-a em silncio. Kim encantou-se com o brilho de amor e desejo que viu refletir-se nos olhos de Mark.
Eu te amo, Kim. Sempre amei, mas, por alguma tolice qualquer, insistia em negar isso para mim mesmo. Agora chega.
Voc  a melhor coisa que j aconteceu na minha vida e quero dividi-la com voc, ter filhos... Diga que aceita  ele pediu. 
As ltimas semanas foram um verdadeiro tormento para mim, Kim. Quer se casar comigo?
A resposta de Kim refletiu-se no brilho de seu olhar. Nunca pensara poder sentir tamanha felicidade.
Sim, meu amor!
Atravs da janela do quarto, Kim distinguia os sons vindos de fora: vozes animadas, risos ocasionais, uma msica de Bach, tocada por um quarteto de cordas... Sentiu um frio no estmago.
	Pronto, est bem seguro  Chrissie murmurou por entre os lbios cheios de grampos.
	Estou pronta?  Kim perguntou.
Chrissie lanou-lhe uma ltima olhada.
	Oh, Kim! Voc est linda! Parece um anjo!
Kim voltou-se para o espelho e suspirou.
	Deus...
Nunca imaginara que se tornaria uma noiva to bonita. Mark e ela haviam decidido casar logo, por isso optaram por um casamento feito em casa mesmo. Todavia, com a ajuda de Chrissie, o que era para ser ''simples", tornou-se "elegante". Em vez do modelo tradicional que Kim planejara comprar, usava um vestido longo de cetim, com detalhes em renda nas mangas curtas. O modelo moldava-se perfeitamente ao corpo, deixando-a com uma aparncia inocente e sensual ao mesmo tempo. Chrissie lhe entregou o buque.
	Est na hora, querida.
O corao de Kim disparou quando ela viu Mark parado ao lado do altar, no jardim. Vestido com um terno preto, estava simplesmente magnfico. Mordeu o lbio, imaginando como uma moa pobre do Brooklyn, chamada Kimberly Wade, poderia ter tanta sorte.
Os msicos viram o sinal de Chrissie e comearam a tocar a marcha nupcial. Kim ergueu um pouco a cabea e seguiu em frente, segura de que seu futuro com Mark seria brilhante. Percorreu o tapete vermelho sem desviar os olhos dos dele. O amor que viu neles, impeliu-a a continuar, sem um instante sequer de dvida.
A cerimnia prosseguiu como de costume. Trocaram votos de amor e fidelidade. Colocaram alianas um no outro. Ao final, Mark beijou-a, indicando o encerramento da cerimnia.
Kim notou que todos os empregados da Brightman, Collins e Fuller estavam presentes, incluindo os donos. Era bom ver que no haviam guardado rancor algum contra Mark por ele haver sado da empresa. Os votos de felicidade que desejaram a ambos foram sinceros.
Ficou apreensiva quando Suzanne se aproximou para cumpriment-la.
	Parabns, Kim. Nunca vi Mark to feliz; estou contente por vocs  disse e se retirou.
	Quando  que toda essa gente ir embora?-  Mark sussurrou-lhe ao ouvido, pouco depois.  Tenho uma lua-de-mel
esperando para ser cumprida!  brincou com olhar insinuante.
 Eu te amo, sra. Johnson.
	Tambm te amo, sr. Johnson.  Ela beijou-o levemente nos lbios.
Quando finalmente todos os convidados partiram, Kim e Mark foram para o quarto, rindo e comentando os acontecimentos do dia. Na manh seguinte partiriam para uma viagem ao Mxico e ainda restavam algumas coisas a serem arrumadas.
	Pronto! Tudo preparado  Kim anunciou, fechando uma sacola.
	Nem tudo...  Mark puxou-a para ele.  H alguma lei que determina quanto tempo a noiva deve passar com o vestido?
	Ah... Creio que no.
	Odeio transgredir leis, mas, se houvesse alguma a esse respeito, eu a desobedeceria com todo prazer...
Dizendo isso, Mark comeou a desabotoar o vestido de Kim.
Bem mais tarde, Kim acordou com a estranha sensao de que deixara de fazer algo importante antes de dormir. S ento lembrou-se de seu dirio.
Levantou devagar para no acordar Mark e foi at a escrivaninha diante da janela. O luar entrava por ela, iluminando parcialmente a mesa e o ambiente. Abriu o dirio e escreveu a data.
Dez minutos depois, a pgina continuava em branco. Kim nunca sentira dificuldade em escrever sobre os fatos importantes de sua vida. Mas de alguma maneira sentiu que palavras no seriam suficientes para descrever esse em particular.
Quando finalmente fechou o dirio, havia escrito apenas uma frase. Com um suspiro, voltou para a cama, aninhando-se entre os braos do marido.
O dirio repousado sobre a escrivaninha tinha sua capa iluminada pelo luar. Entre suas pginas, escrita com letras floreadas, lia-se a seguinte frase: "Existem dias perfeitos".


FIM

